quinta-feira, outubro 26, 2006

Face a face


Mutilar o corpo em nome do que o outro pensa de mim. Ou seria para continuar alimentando, no outro, a ilusão de que sou perfeita?

Afora o prazer de também permanecer alienada ao tempo, confesso que invisto no visual. Sou uma compradora contínua de batom. Outro cosmético que não falta em casa é o protetor solar, fator 100, porque o não uso prejudicaria, em muito, a minha face.

Não estou - ressalto- , criticando quem se deixa retalhar, moldar o corpo, nas inúmeras clínicas de “perfeição”. Mas, digo que adiar a velhice é apenas adiar um problemão.

É claro que penso nisso, mas não o tempo todo. Agradeço os quase 52 anos de experiência conquistados com muito trabalho.

Interpreto a correria pelos bisturis como auto-rejeição. Porque assim o faria, caso não pudesse suportar as marcas do tempo. Mas, o meu corpo tem histórias maravilhosas que não devem ser apagadas pelo bisturi implacável.

Volto a esse tema porque as plásticas estão nos descaracterizando. Nunca vi tanto seio inflado na TV, nas ruas... E fico pensando qual seria o mérito de mostrar algo que não me pertencesse?

Seria o mesmo que roubar um texto, integralmente. Ninguém tiraria de mim a frustração da pseudo-propriedade.

E a mídia, claro, contribui porque dá muito dinheiro. Principalmente agora em que tudo pode ser feito em diversas parcelas. Mulheres do meu país, acordem! A beleza vai muito além do que a roupa ou a nudez mostra.

Costumo dizer que envelhecer dói, mas também temos as doenças da infância. Apesar de a primeira aplicação da vacina Sabin datar de 50 anos, eu não tomei, sabia? Tenho pernas perfeitas(também na estética) devidamente cobertas por calças compridas, por ser um vestuário prático.

Não perco muito tempo diante do espelho. Eu já conheço essa cara. A que eu quero ser apresentada, em toda a sua plenitude, o espelho não mostra. Alguns amigos, caros amigos, e os poucos adversários, têm me demonstrado essa desconhecida, que me acompanha há cinco décadas atuais. Digo assim, porque sei o quanto antiga sou e que vou continuar.

Você não faz idéia do prazer que a renovação nos permite. Não é tratar o corpo como uma vestimenta. Isso não! Mas sei que irei trocá-lo, não pela força e imposição do bisturi, mas pela providência do ser universal.
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