domingo, abril 15, 2007

No badalar


Tomava café, aproveitando a solidão promovida pelo sono dos encarnados da casa, colocava o pensar em movimento. Gosto muito daquele cantinho da cozinha, tendo como companhia o café quentinho preparado pacientemente por mim. Rotina diária que não me rouba o prazer de degustar o líquido quente. É um abraço matinal. Um agradecer à vida por momentos tão comuns e mesmo assim tão valorosos.

Penso nos que já esqueceram o prazer necessário do café da manhã por falta de provisões e de oportunidades. Vou longe, transcendo as paredes, o teto da minha casa e procuro o infinito. Com o providencial transporte - o pensamento - rompo barreiras de altitude e longitude.

Um som convidativo me repõe no lugar à mesa. É o sino da igreja de Fátima, marcando oito horas. O meu relógio está atrasado cinco minutos. Sem querer questionar as razões para as diferenças, acompanho as oito badaladas. São tão familiares. Busco na memória quantas vezes já fui embalada por esse som.

Volto à viagem. Vejo-me de vestido longo e preto. Cabelos presos com uma espécie de chapéu esquisito. Não é chapéu é um lenço. Corro para atender ao chamado e me junto à outras mulheres com o olhar esticado no além. Nunca sei o que acontece em seguida. Histórias interrompidas. O mesmo ponto e vírgula que a minha existência sugere.

De volta ao presente, fico curiosa para saber a história do sino. É tudo tão interessante. Hoje, depois de perder vários relógios de pulso - alguns esquecidos numa gaveta qualquer - verifico o passar das horas no celular. No entanto, a nostalgia e aquela cena em algum bolsão da memória, se repetem.

É tão bom saber que a vida prossegue.
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