sexta-feira, julho 11, 2008

Meninos - de - casa


Eu não conheço mais a minha Cidade. Quando menina, dominava poucos quarteirões da rua Capitão Uruguai, da Aerolândia. Corria descalça na areia solta, que depois virava rio quando a chuva vinha com vontade e fazia o Cocó romper os limites impostos pelos homens. O rio sempre vence a teima.


Sou do tempo que menina brincava apenas no jardim da casa. Rua era para menino, mesmo assim com severa vigilância dos pais. Não tinha menino - de - rua naquela época. Poucos eram os que apareciam pedindo uma ajuda, mas sempre acompanhados por um membro da família, numa comprovação de que não eram abandonados.


Olhava - os com olhos de menina, que conhecia a carência, mas não sentia na plenitude o que era a necessidade suprema. Ficava alegre quando ajudava.


Faziam parte dos muitos que fugiam da seca do sertão. Bem diferente hoje, cidade grande, ruas e avenidas amplas, cheias de carros importados, sofisticação nas vitrines, num confronto gritante com os pés sujos, pequenos, largados em calçadas.


Nem eram necessárias leis para dizer que criança tem direitos. Os pais e a casa, o lar bendito, que mesmo na simplicidade, era abrigo quente, igual a sopa que mamãe me dava à noite. Criança só fumava por curiosidade e era premiado com boas palmadas, além do castigo de ver a rua apenas pela fresta da janela.


A cidade cresceu e os direitos encolheram. Para cada casa derrubada, fustigada pela miséria, duas, cinco, cem crianças povoam as ruas da Capital disputada por conta do sol. Aqui, por ali, sempre estão com poses atrevidas e com um olhar expressivo do medo atrevido, característica de um abandono, que não se explica.

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