sexta-feira, setembro 19, 2008

No ônibus



Você, por favor, poderia - caso puder se virar - abotoar a minha blusa?


Como é?


Por favor...


O apelo foi feito por mim numa dessas viagens (quase divertidas) nos ônibus de Fortaleza. Usava uma blusa de malha, manga colada e casas mais largas para os botões, o que me provocou o constrangimento.


A bondosa mocinha virou-se com cuidado e espantada entendeu o pedido inusitado. Eu com um dos braços pendurados no vão de segurança e outro com os apetrechos femininos. Depois de prestar o favor, sorriu: andar de ônibus apertado é um grande sufoco, realmente.


Sorri aliviada e, mais uma vez, pronta para o mundo, usei o corpo como escudo e fui empurrando os guerreiros enfileirados, numa união harmoniosa de corpos e suores. Nem careta pode-se fazer por pura falta de espaço.


E o pensar buliçoso é o único que pode se espalhar. Só não pode se chatear olhando através das janelinhas o conforto de outros num banco de carro, completamente alheios aos viajores do coletivo.


O homem precisa, de vez em quando, comprimir-se, quem sabe, numa idéia revolucionária antiga de irmandade. Ninguém é mais irmão do que o usuário de ônibus.

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