sexta-feira, maio 16, 2008

Arte



Os grandes olhos da tela empoeirada - poeira fininha, invisível aos olhos - percorria os quatro cantos da sala. Lembrava o movimento dos ponteiros do relógio, que torcia o bico com despeito da imitação. O sofá gemia baixinho amassado pelos quatro pacientes, que de tanto esperar já esqueceram o que iam tratar na consulta.


O tapete ria fingindo não sentir incômodo do pé impaciente, que raspava com o salto alto do sapato o risco da linha amarela que começava a desviar no tecido, confundindo o desenho. No alto - quase não dava para ver - o ventilador com calos de movimento circular, aquecido enquanto refrescava.


Por quanto tempo o prego vai suportar o meu peso? Indagava, ao mesmo tempo, em que corria o pensamento para afastar o medo de ficar jogado no chão. Apesar do grande movimento na sala, ninguém detinha o olhar para a sua paisagem presa no pano. Mas, espere aí. Alguém toca a textura: é pintura, mesmo. Pensei que fosse apenas uma imagem...


Ainda mais essa: ter que lidar com a ignorância sobre a arte.

quarta-feira, maio 14, 2008

Novo jargão



Infelizmente, a tecnologia ajuda a criminalidade. O jargão a bolsa ou a vida está fora de uso. Agora é passe o celular. Não olhe para mim. Estou armado. Rápido, senão eu atiro em você. Não olhe para trás. Vá em frente!


Aqui reproduzo parte do monólogo da pessoa que levou o meu aparelho celular, há poucos meses. É estranho viver o fato. Eu estava com a bolsa, um pouco de grana, mas ele só queria o celular, que me mandou colocar no chão. O que eu fiz ( confesso) com delicadeza acompanhado de um vá com Deus meu amigo.


Depois de comentar o fato, perguntaram-me se havia conferido se a pessoa estava realmente armada. Lógico que não, e eu sou de me arriscar?


A lembrança do "incidente" é devido à matéria que acabo de ler, constatando a preferência do brasileiro ao aparelho, no caso de ter de escolher apenas um único objeto para sair de casa por 24 horas.

terça-feira, maio 13, 2008

Ver, ouvir, sentir



Trair não é mais crime sujeito à pena, mas expor o marido à humilhação pública, sim. É o que diz matéria lida há pouco, na minha rotina de buscar um mote para o meu post de hoje.


Cismo o meu pensar com relação aos pecados nossos (de outros) quando não são expostos. Se ninguém souber, tudo bem? Não basta o que se sente no íntimo, a frustração e a complexa forma de conviver com a traição?


A dor moral não cobra indenização financeira. Pede tempo para recuperar a valorização íntima. Quer corda para sair do poço. Exprime desejo - mesmo que latente - de escapar, deixar fluir a rejeição sofrida.


E por que a traição dói? O apego diz presente. O que me pertence não divido com ninguém. O pensamento encerra tradução superficial da situação. Vai mais longe porque a retraída cumplicidade sobrepõe-se a lealdade.


Trair é um verbo que se conjuga diariamente e nem sempre o sujeito comporta o desapontamento. Porque o que se quer mesmo, no fundo, é aprender a amar.

segunda-feira, maio 12, 2008

Blindagem


Vivemos em perigo. Corremos risco o tempo inteiro. Agora mesmo posso estar sendo consumida por algum tipo de vírus - afora o que me transtorna com dores de cabeça intensa, a velha gripe somada à mais antiga sinusite - que possa ser fatal.


Este pensar está longe de ser o mais leve que costumo usar neste espaço, para dar um descanso ao leitor de tanta notícia carregada de violência. Contudo, explico o início meio caústico. Estava lendo sobre uma novidade no mercado para veículos.


Lembrei que no ano passado, quando voltava da casa de uma amiga, onde promovemos uma reunião para um encontro de juventude, quase fui vítima de uma pedrada. Um adolescente arremessou a pedra contra o carro. Ainda bem que o vidro estava um pouco acima da minha cabeça. Não sei o que me ocorreria depois de ser atingida pelo projétil.


Percebo que alternativas não faltam para remediar situações adversas: compramos grades cada vez mais altas e fortes para resguardar a nossa casa; levantamos muros mais altos; nos exilamos no interior dos prédios e ficamos em contato com o mundo por meio da Internet; e usamos cada vez mais as conversas virtuais. Tudo em nome da sobrevivência.


Ontem, no dia das mães, fui ao supermercado. Demorei pouco na escolha dos produtos que buscava, e uma vez na fila do caixa, ouço uma voz feminina revoltada, relatando o roubo de um veículo que tinha acontecido há pouco, no estacionamento do estabelecimento.


Volto à história da película blindada nos vidros dos veículos, numa tentativa de prevenção. A gente pode trancar; criar dispositivos contra a insegurança, mas quem segura a mão que apedreja? É preciso mostrar ao homem que a fonte da maldade precisa secar, enquanto ele se alimenta de bons pensamentos e de interesse pelo bem do outro.

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