terça-feira, novembro 19, 2013

Saudade

Hoje estou saudosa de uma saudade que não doi.

Só me faz lembrar com muita exatidão o que vivo, vivi.

Bato palmas para os aniversários dos momentos que mais mereceram a minha atenção: as dores.

Aperto as mãos e aceito os abraços do conforto vindos de tantas direções... até mesmo das que ignorava.

Debruço o dorso para cumprimentar quem sempre está comigo e dou saltos longos, altos para lembrar o rastejar da pena para libertar-me das tempestades.

Nada é mais calmo do que um dia sem temporal de ideias e imagens negativas.

quinta-feira, outubro 24, 2013

Descoisificar

Eu passei a gostar mais de mim quando parei de coisificar pessoas.

Há hoje um grito de alerta para o retorno pessoal. Assim, é melhor quando lançar olhos para uma criança não ofertar tanta matéria. Os presentes serão acréscimos, sem a pretensão de identificar a minha presença. Hoje, com três netos, é importante não representar com mimos o meu amor pelos pequenos.

Foi desde cedo que aprendi - sem o aparato da psicologia - que as pessoas são também marcantes por serem gente. Não ganhei brinquedos e no mergulho interno não vejo lacunas pela ausência de bonecas, bicicletas. Mantive amigos invisíveis que me acompanham até hoje e me ajudam a fortalecer amizade otimista com os visíveis.

quinta-feira, setembro 26, 2013

O presente

Acho que estou ficando madura. Amadurecer não é contar rugas do rosto, os pés de galinha que se acumulam formando molduras, que aos 15 anos não eram ameaças. Olho-me todos os dias e compreendo perfeitamente o que vem ocorrendo comigo. E como na adolescência, sou apresentada à uma nova pessoa. Todos os dias sou renovada.

Há pouco lia um testemunho de uma mulher falando sobre os cem anos de sua avó. Perguntava o que podia comprar de presentes para aquela senhora. A resposta de uma parenta foi que um pijama confortável seria o melhor mimo.  Adoro o dia do meu aniversário pelas palavras bacanas que inspiro as pessoas a dizerem pra mim. Sei que é de coração porque tudo vem de lá. Agradeço sempre e correspondo aos abraços, a troca de digitais que costumo dizer. Os presentes também são bem vindos: batons, cremes, roupas e os acessórios das orelhas, cintura, braços e dedos.

Não abro mão do jeans e do batom. Pulo alguns anos no tempo e busco a boca risonha marcada pelo tempo... vou querer colori-la? A cultura põe cinza no outono da vida rica nossa. No entanto, pra mim, cinza só na cor do lápis que circunda a minha herança indígena.

terça-feira, setembro 03, 2013

Profundidade

Eu não sei nadar.

Deve ser por isso que vou sempre ao fundo de tudo. Nas relações, no trabalho...

De vez em quando penso como seria se ficasse vez por outra na superfície... boiando na inércia, no tal "deixa a vida me levar..."

Percebo que sempre quis o controle e, com isso, me descontrolo.

Mas, ter fé não é olhar pro ceu e ficar esperando o maná. É preparar a vasilha para o doce que está pra vir.

É cair na vida, ralar nas escadarias. No patamar onde cheguei subi de joelhos.

Mesmo assim, gosto de me largar no espaço porque sei que sempre haverá um chão para apoiar.

quarta-feira, agosto 21, 2013

Felicidade



Felicidade é quando você não se prende ao tempo para identificar o que te faz bem. Saudade é perda de tempo.É um reter inútil de uma suprema força para garantir a perpetuação de um instante flagrante.

A felicidade é humilde, não se apresenta com estardalhaço. É terna e vibrante com a recepção que lhe impomos. Nem sempre depende do esforço íntimo. É latente. Habita a alma e permanece calada ouvindo os rompantes da angústia, a prima mal criada que rouba o sossego.

A felicidade é suprema e independe do tempo. É o raio que acompanha a tempestade da emoção. Curta, no entanto, extremamente plena!

A felicidade é a irmã que divide o quarto, a cama, o jardim nas brincadeiras com as flores. É a borboleta que pousa no desenho da tela colorida. É simples, mal vestida, mas sempre recebe convite para festas nos salões do cotidiano da vida.


quinta-feira, julho 11, 2013

Raimundin

Hoje, o meu pai, Raimundo Rodrigues de Abreu, estaria completando 90 anos. Eu não tenho só a sua lembrança física, tenho o aprendizado de gente séria. Foi sempre tão simples, tão carinhoso e sempre me compreendeu tanto. Nem precisava falar e ele já recebia o recado.

Quantas vezes, o gênio explosivo meu açoitou o seu olhar sossegado... Em resposta, balançava as pernas na cadeira, sacudia um pouco o corpo e com voz calma "o que foi que te mordeu hoje?" É falta de dinheiro? Quando eu ganhar na loteria, dou tudo prá você." De mim, a gargalhada incrédula das chances com os números, mas uma vez quebrado "gelo", a felicidade de viver tão intimamente com alguem que sempre me respeitou.

Raimundin como chamava - e ele deixava - não media esforços para participar da minha rotina. Rasgava elogios com o meu trabalho; xingava quando alguem me aborrecia "mas, pai, você nem conhece a pessoa" chamava sua atenção, e ele "mas conheço você."

Eu tive a grande sorte de conhecer e conviver com meu pai. O legado é tamanho, que a saudade não vai cobri-lo.

segunda-feira, julho 08, 2013

Enjoei, tô dispensando...

Eu já estou de saco cheio com os convites midiáticos de ter corpo definido.

Se for para me submeter ao bisturi para retirar gorduras(resultado de anos de comilança boa em companhia de amigos mil)...

Esvaziar-me das bebidas geladas que garantiram(e garantem) gargalhadas,  conversas jogadas fora e também aconchego familiar...

Para caber no número 38(qual o problema com os quarentas?);  carregar pesos num frenesi para endurecer músculos que não resistem ao tempo e se penduram embaixo dos meus braços.

Qual é o problema de envelhecer, ficar flácida? De que adianta cortar tiras e mais tiras de pele, esticar-me toda, entupir o rosto de germes(botox), isso tudo pra atender quem eu não conheço e resolveu ditar-me modos de vida?

Enjoei! Nunca fui magricela, tive o meu tempo de gostosa e, confesso, nada conferi de melhoria pessoal com isso. Hoje estou pra ser vista muito além do que a calça jeans esconde ou realça, dependendo de quem me vê.

A propósito, nem sempre quem me olha, me vê, de fato.

Obrigada pela visita

Espero seu retorno