Quem esqueceu o quê?

 

Não é sempre, mas existem manhãs em que eu fico lendo coisas que me fazem muito bem. Podem ser piadas, podem ser textos filosóficos.Uma chamada de atenção para o meu viver não muito pacífico.

E entre um gole de café e outro, uma mordidinha na minha tapioca preferida, olho para o fogão que está bem à minha frente e vejo que o fogo que cozinhava os ovos está desligado. Paro e me pergunto, eu desliguei quando?

Será que eu já estou no nível senil e não lembro das tarefas recentes?

Mas na mesma hora eu me compenso respondendo que pela manhã fico tão no automatismo, que não percebo o que faço.

É um pilotinho automático que toma conta da vida. Que me faz colocar um brinco para depois no caminho, ficar segurando para ver se coloquei o par igual.

Ficar buscando a lembrança, que brinco peguei, já que a gaveta tem tantos?

Entre a perda de memória da senilidade, (não sei se senilidade seria a colocação certa) prefiro pensar que é o automatismo.

Afinal, a repetição faz parte da minha rotina.

Ainda bem que eu me compenso em abrir as janelas e portas. 

Olhar para esse céu infinito...

Dar uma fungada no tempo e sentir esse ar ainda não tão poluído que as manhãs nos oferecem.

Porque à noite, quando a maioria dorme e deixam as ruas, a terra respira e nos dá de volta esse ar de alento.

Que maravilha!

E diante dessa imensidão, o que é que importa, em qual momento eu desliguei o fogo?

Recado musical


Um dia, a esplêndida Danuza Leão, num daqueles momentos criativos que tinha, falou sobre a música como um recado. Ela destacava a paquera nas danceterias, utilizando frases de compositores, que não nos conhecia, mas que  mesmo assim, falava por nós. A crônica da jornalista me veio agora com uma grande força. 

Ela falava por experiência própria de quem lê a alma feminina. Assim como a minha lembrança me leva de volta às pistas, quando percebia um certo olhar insistente.

Fingindo não ser comigo, olhava em volta para ver quem seria o alvo do interessado. Percebendo tratar de mim mesma, devolvia o olhar, que não ia sozinho: levava o meu jeito de gata, que arranha quando o tecido era suave, só para ver até onde aguentaria.

Vem à mente a letra que tecia a rede da prisão lançada. Era magia pura!

Assim deixava-me invadir. 

Dançava, dando voltas para confundir o alerta de perigo: não cai nessa de novo!

Seguia em frente porque não eram os pés que me lançavam.

Era o sentir-se viva, representada pela letra que prometia.

A paz(s)

 


O que vocês terão aqui é paz com S
. Uma frase solta para quem quiser pegar no ar?

Ok, a princípio PAS com acento é plural de pá, um instrumento para cavar pisos, areias, abrir buracos. Se a idéia é afundar, não afundaremos juntos.

Rebuscando a net encontro que paz com s considerada gíria, é usada como meme ou hashtag e significa simboliza tranquilidade e "vida que segue" sem confusão.

No balé refere-se a um passo ou movimento de destaque executado por um ou mais bailarinos (como o pas de deux). Em francês, é um advérbio que compõe a estrutura de negação na língua, significando "não" (ex: je ne sais pas, que significa "eu não sei"). (aqui peguei a frase como estava na net)

Quem cuida?

 Cuida, que o tempo corre. E o que se ouve dizer. Mas, o que é cuidar?

É estar sempre atento?

É praticar agilidade?

É ouvir tudo, prestar atenção no que não deve?

Cuidar por muito tempo foi aquele prestador de serviço que tomava conta.

Tomar conta é não fazer por onde. É fazer o que o outro espera que você faria.

Então, vamos cuidar do que está por vir, preparando o hoje até o fim?

Permissão


Por muito tempo e, acredito que até hoje, por mais estúpido que seja, nós mulheres precisávamos pedir licença para existir. 

A existência da individualidade nos foi negada. 

Só a respiração, pelo seu processo natural, nos era permitida sem a devida permissão dos "donos". 

Não, não éramos e nunca fomos coniventes com situações assim. 

Éramos constrangidas a "aceitar" para continuarmos sobrevivendo.

Agora, cismo o pensar: a quem devemos pedir licença? 

E quem nos deve permitir tal feito?

Vendo-me por dentro, percebo, sempre que posso, que a permissão para continuar nunca foi invertida. 

Ou seja, não me dava conta de que precisava solicitar a mim mesma, licença, alvará, seja lá que nome receba, para continuar em busca do que mais preciso. 

Será que o meu pedido de licença expirará um dia, antes mesmo, que seja concedido? 

A filosofia como morada

 Lendo uma pequena informação sobre o trabalho do filósofo Henry David Thoreau, cismei o pensar a respeito do meu eu, naquele descortinar que busco sempre para alcançar-me. Lembro que muitas vezes evitei esse contato porque, não percebia, mas eu fui (acho que continuo sendo) a minha desconhecida. 

O filósofo em questão coloca, de uma forma clara, que em sua casa havia três cadeiras: uma para a solidão, uma para a amizade e uma para a sociedade”. Sentar na primeira significa um encontro quase que real do íntimo; na segunda cadeira, a busca pelo outro e na terceira, a persona que à sociedade se apresenta.

Para o filósofo que defendia, o que para muitas pessoas virou tendência, o pouco enriquece muito mais do que o acúmulo. Nessa viagem interior, Thoreau viveu afastado, numa pequena cabana situada numa floresta, durante dois anos. 

E eu, aqui, quantas vezes me perdi, na densa floresta dos meus pensamentos. 

Quantos assentos ocupei, numa tentativa de encontrar-me, deparar amigos e ser aceita numa sociedade que só impõe costumes, dos quais quero
fugir.

Ah.... quem disse que a filosofia pode ser vã? 


Ah....a poesia

 


A poesia nem sempre desponta ou aponta para algo que costumeiramente está à nossa frente. É como diz Adélia Prado: olho pedra e vejo pedra mesmo. 

São nos descuidos da alma flutuante que a pedra deixa de ser material. 

A poesia não é pra ser descoberta. Ela mora em todos os lugares. Em todo o ar que se respira. 

Nos momentos de dor, ela submerge em busca de ar, para outra vez conquistar a superfície. 

Pensamos que a dor nunca vai passar, mas passa. Pensamos que tudo é eterno, mas não é. O pensar latejante de Clarice Lispector nos desperta para a instalação do poeta, que depois de afundar, aprendeu a nadar. 

A poesia já me foi dolorida. Noutros momentos, surpreendente!

Em outros, merecedora de todo a minha atenção.

Em tudo vejo poesia, assim como o jornalista Alberto Perdigão nos fala sobre a essência que não quero perder. Não preciso passar por essa transformação. 


A imagem é de Michael_Pointner


Quem esqueceu o quê?

  Não é sempre, mas existem manhãs em que eu fico lendo coisas que me fazem muito bem. Podem ser piadas, podem ser textos filosóficos.Uma ch...