Apostando na velhice?


 Ensaio para velhice. Como seria? Tirar fotos escondendo as rugas do pescoço. Aquele formato que ninguém gosta, lembrando a papada de um peru. 

Esconder os braços flácidos com mangas longas. Levantar os olhos e o queixo na hora da selfie. Aumentar volume dos lábios para disfarçar o código de barras que insiste, que salta aos olhos. 

Ninguém te prepara para ficar velho. A aposta é na juventude eterna, como se envelhecer fosse algo obsceno, criminoso. 

Aprendemos desde cedo que lugar de velho é no fundo da rede. É aquele traste que demora a morrer. 

A planta esquecida no vaso do canto da sala, que só é tocado quando é necessário varrer atrás. E quem vai olhar para as costas de um vaso pesado, no canto esquecido, lugar ideal para aranhas e outros peçonhentos? 

Figuras famosas, como a Oprah, afirmam que envelhecer é uma merda! Rita Lee que rompia tudo, também comparou a velhice à uma ameixa seca, ao mesmo tempo lembrando da importância da fruta para desencalhar o intestino. 

Olho-me no espelho, somente eu e aquela peça que já me mostrou como eu fui uma grande aposta física. 

Na verdade, o envelhecer é um grande aprendizado. A gente pensa que já deixou a sala de aula da vida, aí tudo muda! Você passa a lidar com as limitações. O vigor do corpo não se retém com exercícios, o máximo que se consegue é fortalecer os músculos, para que o andador seja adiado. 

O que mais temo na velhice é perder a individualidade. Deixar de fazer coisas simples como passar um café, a minha bebida preferida. Caminhar no jardim, arrancar matinhos para que as flores continuem me encantando. Pegar um uber sozinha, tomar chopp, vinho, comer sabores novos para um paladar já cansado de tantos temperos. Nada é mais temível do que a perda da individualidade. 

Conheço idosos que são cumprimentados quando visitas chegam para os mais novos da casa, apenas na entrada e na saída. Ninguém puxa um assunto porque sabe já de cor o que ele tem a dizer. E o que é a vida, se não uma grande repetição? 

Gentilezas, amor sem limites


 As gentilezas surpreendem. 

Estamos tão acostumados a lidar com dificuldades, que quando ocorre de uma pessoa que você nunca viu e lhe faz um gesto, sem nada dizer, mas que te auxilia muito, é uma surpresa brilhante. Te toca a alma. O coração passa a ser ouvido porque salta de alegria.

Estou falando de um garoto desconhecido. 

Estava na encruzadilha da avenida Pontes Vieira e a Rua Barbosa de Freitas, tentando entender porque o sinal vermelho para pedestres coincidia com o sinal para os carros. 

Estavamos ali parados eu e os carros. 

Aí, ele veio, um belo adolescente. Olhou para mim de soslaio, com brilhos nos olhos. Tirou o fone de um dos ouvidos, apertou o botão que aciona o semáforo para pedestres. 

Julguei que também iria atravessar. Só que não. Recolocou o fone no ouvido, deu uma última olhada e seguiu em frente na avenida Pontes Vieira. E eu agradeci em pensamento e solicitei aos céus que o iluminasse sempre!

A sorte vem dos biscoitos


Hoje quero quebrar o biscoito para ver o que a sorte me envia. 

Os biscoitinhos eram mimos de restaurantes orientais, aqui na minha cidade, para quem devorava aquelas comidas gostosas e leves.

Comer diferente nos leva a lugares diferentes. 

A sorte enviada pelos biscoitinhos serviam como passagens para tempos remotos de uma infância assombrada. 

Cresci ouvindo coisas, vendo coisas. .. Frutos da imaginação? 

Diziam que era bem doida e nessa maluquice cá estou eu, em busca de mais assombros. Isto, porque a realidade nossa assusta muito mais e não oferece saídas inteligentes, enquanto que o irreal(?) me transporta para diversas trilhas, que por sorte, me permitirão encontrar-me. 

Eu e o Universo

 O pensamento se repete assim: de vez em quando o pensar do outro chega a me incomodar até que descubro que apenas faço ideia do que a pessoa possa pensar. 

Que ousadia a minha chegar a querer saber o que passa na cabeça do outro. Na verdade, é na minha cabeça que tudo mora. 

Olhando para os lados, em todas as direções, percebo flagrantes que antes não me eram notados. 


O ceu na sua infinitude, as paredes fixas roubando a cena, o barulho que a mente faz quando os olhos não captam o que a Natureza representa. 

Eu e o Universo, pomposo, rico, maravilhosamente imenso, diante da minha pequenez nem sempre serena. 

O que eu poderia ter feito/fazer para percebê-lo? 


Quando falar

Em muitas ocasiões quando falo fico me perguntando se deveria ter me calado.

E, quando calo, se deveria ter falado.

Nesse conflito íntimo, dou vazão aos questionamentos outros

que me invadem sempre.

Em muitos momentos tive prazer de fazer calar o interlocutor invasivo.

Noutros, gostaria que o silêncio fosse o companheiro mais constante.

Quer saber, nem sempre respondo porque não sei o que dizer.


Mulher, o que podemos?


Estava aqui matutando sobre o que a mulher não pode. 

Essa conversa  - que não é mole -começa cedo, a partir das meninas que não podem brincar com meninos (porque eles são grosseiros?) ; correr provoca varizes; garotas de família(?) tem que se comportar! 

A cultura do que não se deve fazer criou raízes em nós e abriu uma fenda nas relações.

Não me admira ouvir ainda hoje um representante masculino - acredito que ele só falou por si mesmo - de que mulher, além de não entender sobre futebol(até hoje estou para entender o que tem de tão complicado) deveria apenas cuidar do que é do seu interesse(!) cuidar de casa e alimentar o maridinho.

A cultura machista não tem que ser vencida apenas pelo homem, mas por nós mulheres, que de certa forma ainda alimentamos - sem a nossa anuência - esse estigma pelo simples fato de sermos mulheres. 

Digo, que em casa, precisamos mostrar o outro lado da moeda para os nossos filhos, os netos, os sobrinhos.... acredito que a transformação deve ser de dentro pra fora. No nosso ambiente familiar, o que estamos repassando?

Vencer a violência é armar-se de argumentos de solidariedade, de gentileza e, principalmente, da necessidade premente de querer sermos melhores.

O tempo e as respostas

Um pensamento outro

Uma verdadeira história de vida

 me convida a pairar no tempo

sem cobranças

lembranças bem amiúde 

e na voz quase sussurrante de Nana Caymmi

eu canto, saudando Aldir Blanc e Cristovão Bastos: 

Batidas na porta da frente

É o tempoEu bebo um pouquinho pra terArgumento....

Apostando na velhice?

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