Recado musical


Um dia, a esplêndida Danuza Leão, num daqueles momentos criativos que tinha, falou sobre a música como um recado. Ela destacava a paquera nas danceterias, utilizando frases de compositores, que não nos conhecia, mas que  mesmo assim, falava por nós. A crônica da jornalista me veio agora com uma grande força. 

Ela falava por experiência própria de quem lê a alma feminina. Assim como a minha lembrança me leva de volta às pistas, quando percebia um certo olhar insistente.

Fingindo não ser comigo, olhava em volta para ver quem seria o alvo do interessado. Percebendo tratar de mim mesma, devolvia o olhar, que não ia sozinho: levava o meu jeito de gata, que arranha quando o tecido era suave, só para ver até onde aguentaria.

Vem à mente a letra que tecia a rede da prisão lançada. Era magia pura!

Assim deixava-me invadir. 

Dançava, dando voltas para confundir o alerta de perigo: não cai nessa de novo!

Seguia em frente porque não eram os pés que me lançavam.

Era o sentir-se viva, representada pela letra que prometia.

A paz(s)

 


O que vocês terão aqui é paz com S
. Uma frase solta para quem quiser pegar no ar?

Ok, a princípio PAS com acento é plural de pá, um instrumento para cavar pisos, areias, abrir buracos. Se a idéia é afundar, não afundaremos juntos.

Rebuscando a net encontro que paz com s considerada gíria, é usada como meme ou hashtag e significa simboliza tranquilidade e "vida que segue" sem confusão.

No balé refere-se a um passo ou movimento de destaque executado por um ou mais bailarinos (como o pas de deux). Em francês, é um advérbio que compõe a estrutura de negação na língua, significando "não" (ex: je ne sais pas, que significa "eu não sei"). (aqui peguei a frase como estava na net)

Quem cuida?

 Cuida, que o tempo corre. E o que se ouve dizer. Mas, o que é cuidar?

É estar sempre atento?

É praticar agilidade?

É ouvir tudo, prestar atenção no que não deve?

Cuidar por muito tempo foi aquele prestador de serviço que tomava conta.

Tomar conta é não fazer por onde. É fazer o que o outro espera que você faria.

Então, vamos cuidar do que está por vir, preparando o hoje até o fim?

Permissão


Por muito tempo e, acredito que até hoje, por mais estúpido que seja, nós mulheres precisávamos pedir licença para existir. 

A existência da individualidade nos foi negada. 

Só a respiração, pelo seu processo natural, nos era permitida sem a devida permissão dos "donos". 

Não, não éramos e nunca fomos coniventes com situações assim. 

Éramos constrangidas a "aceitar" para continuarmos sobrevivendo.

Agora, cismo o pensar: a quem devemos pedir licença? 

E quem nos deve permitir tal feito?

Vendo-me por dentro, percebo, sempre que posso, que a permissão para continuar nunca foi invertida. 

Ou seja, não me dava conta de que precisava solicitar a mim mesma, licença, alvará, seja lá que nome receba, para continuar em busca do que mais preciso. 

Será que o meu pedido de licença expirará um dia, antes mesmo, que seja concedido? 

A filosofia como morada

 Lendo uma pequena informação sobre o trabalho do filósofo Henry David Thoreau, cismei o pensar a respeito do meu eu, naquele descortinar que busco sempre para alcançar-me. Lembro que muitas vezes evitei esse contato porque, não percebia, mas eu fui (acho que continuo sendo) a minha desconhecida. 

O filósofo em questão coloca, de uma forma clara, que em sua casa havia três cadeiras: uma para a solidão, uma para a amizade e uma para a sociedade”. Sentar na primeira significa um encontro quase que real do íntimo; na segunda cadeira, a busca pelo outro e na terceira, a persona que à sociedade se apresenta.

Para o filósofo que defendia, o que para muitas pessoas virou tendência, o pouco enriquece muito mais do que o acúmulo. Nessa viagem interior, Thoreau viveu afastado, numa pequena cabana situada numa floresta, durante dois anos. 

E eu, aqui, quantas vezes me perdi, na densa floresta dos meus pensamentos. 

Quantos assentos ocupei, numa tentativa de encontrar-me, deparar amigos e ser aceita numa sociedade que só impõe costumes, dos quais quero
fugir.

Ah.... quem disse que a filosofia pode ser vã? 


Ah....a poesia

 


A poesia nem sempre desponta ou aponta para algo que costumeiramente está à nossa frente. É como diz Adélia Prado: olho pedra e vejo pedra mesmo. 

São nos descuidos da alma flutuante que a pedra deixa de ser material. 

A poesia não é pra ser descoberta. Ela mora em todos os lugares. Em todo o ar que se respira. 

Nos momentos de dor, ela submerge em busca de ar, para outra vez conquistar a superfície. 

Pensamos que a dor nunca vai passar, mas passa. Pensamos que tudo é eterno, mas não é. O pensar latejante de Clarice Lispector nos desperta para a instalação do poeta, que depois de afundar, aprendeu a nadar. 

A poesia já me foi dolorida. Noutros momentos, surpreendente!

Em outros, merecedora de todo a minha atenção.

Em tudo vejo poesia, assim como o jornalista Alberto Perdigão nos fala sobre a essência que não quero perder. Não preciso passar por essa transformação. 


A imagem é de Michael_Pointner


Chão de flores


 A vida é uma grande estação. Sentimentos que vêm, sentimentos que vão e sentimentos que ficam. 

É preciso ser estação, base para os que vão e para os que permanecem.

Todos os dias, eu me despeço de algo que me dá muito prazer. 

Mas costumo reter os que incomodam. Nunca parei pra pensar se eu tenho algum problema com a felicidade.

Hoje, com o utensílio mais conhecido no mundo, que é uma vassoura, voltei a varrer o meu quintal, deixando à mostra seu piso e tirando flores.

 Essas flores coloridas, belíssimas, de vida tão efêmera, caem sempre do jasmim, largando no ar o seu cheiro.

E eu não considero isso uma sujeira. As flores, assim como as folhas, elas não sujam. (1:37) Elas só seguem o que a natureza manda.
Saíram de uma semente, cresceram, viraram flores, me encantaram,  deixaram meus dias mais coloridos, mais alegres.  E eu agora as varro. Não é um lixo.
Mas eu preciso livrar meu chão para que novas flores venham. Não se acumulem, não se estraguem. Não embotem a vida.
E assim elas seguem. As flores que caem, porque não mais se sustentam nos galhos. Vão para o chão, seguindo a gravidade.
Me livro delas, porque sei que outras virão.

Recado musical

Um dia, a esplêndida Danuza Leão, num daqueles momentos criativos que tinha, falou sobre a música como um recado. Ela destacava a paquera na...