Aquele aperto de mão

Quase todo dia acordo com uma música no juízo. Gosto desta expressão. E hoje, justo hoje, sinto um ligeiro aperto ao lembrar minha mãe, cantando uma das canções que ela mais gostava de lançar no ar, com aquele vozeirão que Deus lhe deu.

 "Aquele aperto de mão não foi adeus". O verso inicial da música "Aperto de Mão", composta por Augusto Mesquita, Jaime Florence e Dino 7 Cordas, foi cantada e ficou famosa com Dircinha Batista, Isaura Garcia e Beth Carvalho. A canção é da década dos anos 1940.

Fala sobre um possível retorno de alguém e de uma possível aceitação. Nem sempre um aperto de mão sela um compromisso. O adeus pode até nos afastar de algo, de alguém, mas nunca sai de nós, permanecendo vívido.

Minha mãe costumava cantar canções de uma época para a qual sempre retornava levada pelo vento da saudade marcante. 

Quando lhe perguntava o que a trazia de volta, a resposta era um sorriso enigmático. Minha mente viajora completava a frase guardada. Minha mãe fazia da nostalgia o seu amante segredo.

Suas mãos que não costumavam apertar para selar compromissos, tinham movimentos precisos, empregados de uma força que se revelava sempre.

Bato palmas para os nossos autores e intérpretes, que nos tornam intrépidos viajantes, subindo ou descendo em transportes de vivências para lugares que nem sempre conquistamos na rotina. 

São apenas paisagens guardadas em malas, empacotadas com o selo da saudade. 





Piano


 Piano, pianíssimo....

Quando garota, sonhava em ser artista. Sempre considerei a arte uma saída brilhante para qualquer momento escuro que eu vivesse.

Então, queria tocar piano. Amava aquele instrumento. Aquele móvel imponente, ocupando um espaço da casa. Aquela cauda... as teclas bicolores. O pedal, lembrando que o corpo é uma sinfonia, trabalha junto: mãos e pés.

E o som? há algo mais envolvente do que o som que sai dali? 

Experimentava tocar no ar quando deitada no escuro (que me metia medo!)

Não podia ler por falta de luz, então sonhava ser uma pianista. De repente, o escuro do quarto isolado, assombroso, virava um grande salão. E nesse transporte lá ia a pianista em concerto, consertando o que havia quebrado dentro de mim.

Piano...

Hoje, teclo, teclas pretas como a falta de inspiração. Teclas que tocam a mesma música, mas que me possibilitam jorrar canções da alma em forma de textos.

Piano...

Pianíssimo, lembro que as teclas tocariam baixinho, considerando que a plateia estava dentro de mim.


A Arte ilimitada


O que seria de nós sem a arte? Onde mais eu veria a criatura criando, ao invés de destruir?

Somos bombardeados(!) o tempo todo pelas mídias. E cada uma apresenta uma forma, uma opinião de quem edita. Como saber o que é verdade? O que foi criado livre e expontâneamente por um artista ou o que foi apenas inventado com recursos múltiplos?

Onde estou é a pergunta mais viável que me vem agora.

Sábado passado fiz um programa cultural com a minha filha, depois de perceber que ela iria para o teatro assistir à ópera Carmem com a companhia de cantores líricos de Brasília. Gente, a arte resiste, assim como resistem as incertezas, as realidades cruéis. 

Bem antes de alcançar o nosso destino, o mapa digital nos levou para um outro ambiente de arte, povoado de atrações que não me atraem. E agora, onde estacionar? É seguro? Podemos deixar o carro? E na volta, quem garante o nosso retorno?

Antes de responder a mim mesma, eis que surge um personagem nos cobrando dez reais, que poderiam ser pagos por Pix, para deixarmos o carro numa via pública. Diante da indecisão - não seria estupefação? -, a minha filha abriu o aplicativo e pagou.

Nos perdemos em meio ao caminho incerto - quem diria que o Centro de Fortaleza me tornaria uma visitante estranhando tudo...

Finalmente alcançamos o destino e, lá muita luz brigando com uma calçada suja, com cheiro de xixi, povoada por pessoas que não têm abrigo - que eu tenho - e que, ao invés de engatilharem a minha empatia me aterrorizavam, de certa forma.

Então, enquanto se debate quem vai ganhar a próxima eleição, me pergunto: quem será o próximo que verdadeiramente vai querer cuidar do próximo?

Frente X verso

 Diante de um desafio me lanço de frente ou de verso?


Dar as costas poderia até ser mais suave se a minha cabeça - que me guia apesar dos conflitos -, diminuísse o número de setas.

Ficar de frente é espelhar o que já vivi e, com certeza, não gostaria de reviver. 

Acontece que -preciso admitir - eu atraio o difícil.

E por que seria?

Porque, na verdade, nunca acreditei nas facilidades. Sempre achei que debaixo de algo, há sempre o desconhecido gritando para ser ouvido.

E, apesar de me fingir de morta para algumas ocasiões, o meu vivo explode em busca da solução.

Então, como fico diante de um desafio? 

Encarado de frente começa a ficar fraco

De costas, ele me persegue a cada passada que dou.

Votei


Pela primeira vez na minha vida, eu fiz algo ao qual não era obrigada. Votei!

Há inúmeras razões pelas quais não abri mão desse direito. 

Um delas, que faço questão de salientar, é o respeito. 

imagem Câmara dos Deputados

Uma espécie de homenagem àquelas mulheres que acreditaram nesse dia que hoje nós mulheres vivemos. O acesso ao voto. 

É claro que os opositores continuam, assim como os discursos. 

Mulher não sabe votar!

Sim, sabemos! 

Essa é a razão que nos leva a apostar na confiança de um representante. Muitas de nós não conhecem a história daquelas mulheres que há séculos não desistiram de um direito. 

Votar é confiar. E o altruísmo é algo da essência feminina.

Vivemos votando, reconhecidamente ou não. 

Somos votantes e acreditamos. Crer não nos torna menores. Muito pelo contrário. 

Usando o humor caústico (que mantenho), costumava dizer que, quando não houvesse mais obrigação, não votaria.

Contudo, é necessário ter gratidão por todas as mulheres que me antecederam. 


(O)fuscando


Quando o fusca chegou ao Brasil eu nem tinha nascido. 

O conhecido carro do povo faz parte da minha história de vida. E o bom da vida é que nem tudo que nos é conhecido é reconhecido como presentes. 

O fusca não me foi dado. Na verdade, nunca possuí um carro em toda a minha existência. No entanto, ainda bem que os fuscas que me levaram a conhecer a minha cidade, tiveram donos diferentes e cores também. 

Nada melhor que o fusquinha amarelo. O primeiro, que foi palco para muitos beijos roubados(?!) tinha como proprietário o pai dos meus três filhos. Gente, ainda bem que o bixim era mudo(rsrs). Ele também foi palco de tragédias financeiras. Duas grandes batidas: uma com o carro estacionado na minha antiga morada na Major Facundo e outra, na Avenida Heráclito Graça, com motorista ligeiramente endoidado, que lhe valeu alguns cortes nas costas. Escaparam os dois.

Ainda nos idos dos anos 1970, Ribamar, o nosso piloto, colega de faculdade, abria as portas para incluir amigos que não tinham condução. Acredita que o fusquete aguentava seis pessoas??? além do Ribinha, que Deus já levou, mas as lembranças ficaram. Riba foi o nosso maior protagonista. "Fátima, esse carro vira" era a súplica para que eu parasse como o palavreado. Gente eu tinha uma boca muito suja!

Uma amiga de todas as épocas recomendou-me que não a comprometesse quando estivesse aqui arranhando as teclas. Não sei se o motivo é o gatilho da saudade que a leva aqueles tempos maravilhosos, quando a gente só queria se divertir mesmo que fossem incluídos os amores fortuítos.

Até aqui falei sobre fuscas amarelos, mas lembro também do verdinho de uma outra amiga, que de vez em quando a gente se aventurava nas saídas dos bares. Acredito que os santos que nos acompanhavam tinham muito trabalho.

Silêncio

O silêncio.... 



Em

algumas 

situações

é 

a 

resposta 

mais 

dura 

que 

alguém 

pode 

ouvir 


foto https://www.centroloyola.org.br

Aquele aperto de mão

Quase todo dia acordo com uma música no juízo. Gosto desta expressão. E hoje, justo hoje, sinto um ligeiro aperto ao lembrar minha mãe, cant...