Ferindo feridas

 


De vez em quando penso nas feridas que tenho. 

As que cicatrizaram, 

as que sangraram muito, 

as que tive que apertar para o sangue sair e não doer depois por dias intermináveis...

As feridas da pele são visíveis.

As que não vejo são as que mais sinto. 

Quando sangro, quem as estancam?

Quando doem, quem as balsamizam?

Em meio a tantos questionamentos, as vezes penso que me acostumei com a dor

Noutros, percebo que já cicatrizaram.

Então, por que o pensar aflito nessas marcas?

Cismando lembranças

 Quem dera eu pudesse guardar o desenrolar de inúmeros sonhos que tive, que tenho. 

Para minha sorte, as sensações ficam por algum tempo. 

Mas, com o passar das horas, aqueles instantes marcantes sossegam o meu pensar. 

Ficam num arquivo, cuja senha, esqueço. 

De vez em quando me despertam. 

O gatilho é disparado por alguma tentativa - nem sempre exitosa - minha para acordar o sentimento adormecido. 

E como dorme o sentir. 


No entanto, como mãe cuidadosa de filhos inquietos, me pego lembrando... ou seria a vontade de lembrar o que não teria esquecido, caso cismasse mais? 

Silêncio

 The sound of silence,


de Paul Simon, que fazia dupla com Garfunkel, sempre expandia dentro de mim. 

Nem desconfiava o que a originou. 

Mas, como um mantra a voz deles, o eco da letra ressoavam em mim, falando coisas que não se apresentavam mas que despertavam em mim o que bem conhecia. 

O som do silêncio que tentava abafar a batucada incessante do meu pensar. 

Costumo ser assim: ruidosa por dentro e por fora. 

Na verdade, lá no fundo, ecoa a voz teimosa que me manda berrar, quando fecho os lábios e selo com o silêncio o que de mais primitivo tenho.

Pecado

 Eu sou uma pecadora confessa. 

Disse isso, certa vez, a um padre. 

Mas, antes dele Deus já havia visto o meu "mal feito". 

Foi assim que aprendi que pecar seria tudo aquilo que alguém jamais esperaria que eu fizesse?


 

Dar um cotoco, por exemplo. 

Juro que achei que quebrariam o meu dedo. 

Será que por isso passei a usar o tal cotoco mental? 

Sou tão ruim a ponto de ficar feliz, olhando para a pessoa que está me enchendo o saco, enfiando-lhe um cotoco diretamente da minha testa? 

Sei não! Mas, confesso, a satisfação que dá....

IA conversa comigo

 Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você. 

E conversou. Só naquele momento, porque não dei continuidade. 

E não fiquei curiosa. 

Gostei da honestidade da IA. 

Tudo aconteceu quando tentei lembrar o nome de uma música e escrevi o trecho na janelinha do Google.

O texto em questão é da canção Meu Cofrinho de Amor. Tão lindo este nome, né?

Assim que introduzi Você é meu céu é minha vida, meu amor, minha querida....

Quase sempre faço isso. Brinco ou brigo com a memória, tentando lembrar o nome, a pecha....

Já pensou em agir como um computador? 

Ser acionado e responder honestamente?  


Quem esqueceu o quê?

 

Não é sempre, mas existem manhãs em que eu fico lendo coisas que me fazem muito bem. Podem ser piadas, podem ser textos filosóficos.Uma chamada de atenção para o meu viver não muito pacífico.

E entre um gole de café e outro, uma mordidinha na minha tapioca preferida, olho para o fogão que está bem à minha frente e vejo que o fogo que cozinhava os ovos está desligado. Paro e me pergunto, eu desliguei quando?

Será que eu já estou no nível senil e não lembro das tarefas recentes?

Mas na mesma hora eu me compenso respondendo que pela manhã fico tão no automatismo, que não percebo o que faço.

É um pilotinho automático que toma conta da vida. Que me faz colocar um brinco para depois no caminho, ficar segurando para ver se coloquei o par igual.

Ficar buscando a lembrança, que brinco peguei, já que a gaveta tem tantos?

Entre a perda de memória da senilidade, (não sei se senilidade seria a colocação certa) prefiro pensar que é o automatismo.

Afinal, a repetição faz parte da minha rotina.

Ainda bem que eu me compenso em abrir as janelas e portas. 

Olhar para esse céu infinito...

Dar uma fungada no tempo e sentir esse ar ainda não tão poluído que as manhãs nos oferecem.

Porque à noite, quando a maioria dorme e deixam as ruas, a terra respira e nos dá de volta esse ar de alento.

Que maravilha!

E diante dessa imensidão, o que é que importa, em qual momento eu desliguei o fogo?

Recado musical


Um dia, a esplêndida Danuza Leão, num daqueles momentos criativos que tinha, falou sobre a música como um recado. Ela destacava a paquera nas danceterias, utilizando frases de compositores, que não nos conhecia, mas que  mesmo assim, falava por nós. A crônica da jornalista me veio agora com uma grande força. 

Ela falava por experiência própria de quem lê a alma feminina. Assim como a minha lembrança me leva de volta às pistas, quando percebia um certo olhar insistente.

Fingindo não ser comigo, olhava em volta para ver quem seria o alvo do interessado. Percebendo tratar de mim mesma, devolvia o olhar, que não ia sozinho: levava o meu jeito de gata, que arranha quando o tecido era suave, só para ver até onde aguentaria.

Vem à mente a letra que tecia a rede da prisão lançada. Era magia pura!

Assim deixava-me invadir. 

Dançava, dando voltas para confundir o alerta de perigo: não cai nessa de novo!

Seguia em frente porque não eram os pés que me lançavam.

Era o sentir-se viva, representada pela letra que prometia.

Ferindo feridas

  De vez em quando penso nas feridas que tenho.  As que cicatrizaram,  as que sangraram muito,  as que tive que apertar para o sangue sair e...