Ah....a poesia

 


A poesia nem sempre desponta ou aponta para algo que costumeiramente está à nossa frente. É como diz Adélia Prado: olho pedra e vejo pedra mesmo. 

São nos descuidos da alma flutuante que a pedra deixa de ser material. 

A poesia não é pra ser descoberta. Ela mora em todos os lugares. Em todo o ar que se respira. 

Nos momentos de dor, ela submerge em busca de ar, para outra vez conquistar a superfície. 

Pensamos que a dor nunca vai passar, mas passa. Pensamos que tudo é eterno, mas não é. O pensar latejante de Clarice Lispector nos desperta para a instalação do poeta, que depois de afundar, aprendeu a nadar. 

A poesia já me foi dolorida. Noutros momentos, surpreendente!

Em outros, merecedora de todo a minha atenção.

Em tudo vejo poesia, assim como o jornalista Alberto Perdigão nos fala sobre a essência que não quero perder. Não preciso passar por essa transformação. 


A imagem é de Michael_Pointner


Chão de flores


 A vida é uma grande estação. Sentimentos que vêm, sentimentos que vão e sentimentos que ficam. 

É preciso ser estação, base para os que vão e para os que permanecem.

Todos os dias, eu me despeço de algo que me dá muito prazer. 

Mas costumo reter os que incomodam. Nunca parei pra pensar se eu tenho algum problema com a felicidade.

Hoje, com o utensílio mais conhecido no mundo, que é uma vassoura, voltei a varrer o meu quintal, deixando à mostra seu piso e tirando flores.

 Essas flores coloridas, belíssimas, de vida tão efêmera, caem sempre do jasmim, largando no ar o seu cheiro.

E eu não considero isso uma sujeira. As flores, assim como as folhas, elas não sujam. (1:37) Elas só seguem o que a natureza manda.
Saíram de uma semente, cresceram, viraram flores, me encantaram,  deixaram meus dias mais coloridos, mais alegres.  E eu agora as varro. Não é um lixo.
Mas eu preciso livrar meu chão para que novas flores venham. Não se acumulem, não se estraguem. Não embotem a vida.
E assim elas seguem. As flores que caem, porque não mais se sustentam nos galhos. Vão para o chão, seguindo a gravidade.
Me livro delas, porque sei que outras virão.

Lembrança irônica


Eu li há pouco a frase que diz ser contraditório ficar triste com lembranças felizes. Fiquei refletindo a respeito, vendo em mim, que as boas lembranças, as que costumo chamar de felizes não me dão nostalgia. 

Eu, em muitos momentos, chego até a sorrir.

Olhar para uma foto flagrante de um sorriso verdadeiro, roubado pela câmera do fotógrafo, é estupendo. Volto no tempo para lembrar a razão, o motivo que me deixou tão escandalosamente feliz.

Sim, porque ser feliz é um escândalo. Uma forma quase que inesperada de alegria incontida. 

Que ironia ficarmos tristes com lembranças felizes (desconheço a autoria) é uma chamada para continuarmos criando mais tempo feliz. 

Se um dia, a felicidade me visitou, ou se me visita sempre, devo alimentá-la. Deixá-la bem saudável para que me alcance sempre, mesmo que por cegueira minha, corra para evitá-la. 

A menstruação ainda é tabu!

Acredito hoje, na maioridade(!!!) que a maior libertação foi a menopausa. Tirando os efeitos (calor intenso, fadiga, farnizim e a vontade de mandar todo mundo se lascar) a menopausa é um alívio para mim. Ser chamada de 


menopauzada pesou, e muito. 

No entanto, ganhei um vale bônus. Os inúmeros pacotes de absorventes sairam da cesta básica. E, agora, fico lembrando do tempo dos paninhos. Aqueles pedacinhos de tecidos brancos que ficavam com manchas vermelhas, tiradas a muito custo com o sabão em barra. Lembro até da marca do bastão, Pavão. Pra mim era a pior parte porque a minha jogava de volta para a bacia de alumínio (não havia tanque de lavanderia) para serem lavados outra vez, até que o branco genuíno retornasse.

E você, que me lê, deve estar se perguntando por que trago esse tema hoje. É para me libertar da angústia de saber que no mundo, milhares de meninas, mulheres no período menstrual não contam com higiene nesse período. São 500 milhões no mundo. 

É para libertar o sentimento de indignação de saber que muitas de nós somos submetidas, maltratadas durante esse período. Que o preconceito ainda nos cerca. A menstrução causa vergonha, ainda!

Desde o início da história da humanidade que a mulher é tida como ser estranho por conta do sangramento. A rapper brasileira Bivolt, aborda em Dignidade pra Fluir,  a pobreza menstrual e a falta de acesso a absorventes. Pagu tornou-se um hino feminino clássico, em que Rita Lee ironiza o tabu que envolve o ciclo: Mulher é um bicho esquisito, todo mês sangra.

A imagem eu capturei do site https://www.sara.com.br


Delete ao meu deleite


 A força do delete é impressionante. 

Assim como outras teclas que nem sempre são usadas por conta da presença do mouse. 

Precisando fazer um backup para a função apagar sem deixar vestígios de frases soltas, medos sem origem visível ...

A quantas andam os passos furtivos da memória, que molesta a presença do momento?

Nesse baú de lembranças, há que se deparar com coisas que significaram muito e que tiveram, viveram o auge, no seu devido tempo.

Acabei de ler uma frase interessante viver não é sobre esperar a tempestade passar. É  sobre aprender a dançar na chuva. Não se conhece o autor com precisão, mas o convite à resiliência é atribuída à escritora americana Vivian Greene. 

E eu, por aqui, em busca do discurso para dizer ao ego, repetindo que não devo apenas dançar na chuva, mas também, cantar na chuva, imitando o espetacular Geny Kelly.


Apostando na velhice?


 Ensaio para velhice. Como seria? Tirar fotos escondendo as rugas do pescoço. Aquele formato que ninguém gosta, lembrando a papada de um peru. 

Esconder os braços flácidos com mangas longas. Levantar os olhos e o queixo na hora da selfie. Aumentar volume dos lábios para disfarçar o código de barras que insiste, que salta aos olhos. 

Ninguém te prepara para ficar velho. A aposta é na juventude eterna, como se envelhecer fosse algo obsceno, criminoso. 

Aprendemos desde cedo que lugar de velho é no fundo da rede. É aquele traste que demora a morrer. 

A planta esquecida no vaso do canto da sala, que só é tocado quando é necessário varrer atrás. E quem vai olhar para as costas de um vaso pesado, no canto esquecido, lugar ideal para aranhas e outros peçonhentos? 

Figuras famosas, como a Oprah, afirmam que envelhecer é uma merda! Rita Lee que rompia tudo, também comparou a velhice à uma ameixa seca, ao mesmo tempo lembrando da importância da fruta para desencalhar o intestino. 

Olho-me no espelho, somente eu e aquela peça que já me mostrou como eu fui uma grande aposta física. 

Na verdade, o envelhecer é um grande aprendizado. A gente pensa que já deixou a sala de aula da vida, aí tudo muda! Você passa a lidar com as limitações. O vigor do corpo não se retém com exercícios, o máximo que se consegue é fortalecer os músculos, para que o andador seja adiado. 

O que mais temo na velhice é perder a individualidade. Deixar de fazer coisas simples como passar um café, a minha bebida preferida. Caminhar no jardim, arrancar matinhos para que as flores continuem me encantando. Pegar um uber sozinha, tomar chopp, vinho, comer sabores novos para um paladar já cansado de tantos temperos. Nada é mais temível do que a perda da individualidade. 

Conheço idosos que são cumprimentados quando visitas chegam para os mais novos da casa, apenas na entrada e na saída. Ninguém puxa um assunto porque sabe já de cor o que ele tem a dizer. E o que é a vida, se não uma grande repetição? 

Gentilezas, amor sem limites


 As gentilezas surpreendem. 

Estamos tão acostumados a lidar com dificuldades, que quando ocorre de uma pessoa que você nunca viu e lhe faz um gesto, sem nada dizer, mas que te auxilia muito, é uma surpresa brilhante. Te toca a alma. O coração passa a ser ouvido porque salta de alegria.

Estou falando de um garoto desconhecido. 

Estava na encruzadilha da avenida Pontes Vieira e a Rua Barbosa de Freitas, tentando entender porque o sinal vermelho para pedestres coincidia com o sinal para os carros. 

Estavamos ali parados eu e os carros. 

Aí, ele veio, um belo adolescente. Olhou para mim de soslaio, com brilhos nos olhos. Tirou o fone de um dos ouvidos, apertou o botão que aciona o semáforo para pedestres. 

Julguei que também iria atravessar. Só que não. Recolocou o fone no ouvido, deu uma última olhada e seguiu em frente na avenida Pontes Vieira. E eu agradeci em pensamento e solicitei aos céus que o iluminasse sempre!

Ah....a poesia

  A poesia nem sempre desponta ou aponta para algo que costumeiramente está à nossa frente. É como diz Adélia Prado: olho pedra e vejo pedra...