Mistério do som


Os sons misteriosos da minha casa. Eu sempre apreciei. Aguçam-me o sentir do desconhecido. 

Eu sempre fui fã dos sons não apresentados com biografia, a exemplo de pancadas em algum cômodo, os arrepios que se seguiam após os sopros de ventos no pescoço...

Quem seriam? Acontece, que sempre gostei de lugares amplos - gosto de morar em casas grandes - e nunca me senti sozinha porque os sons se repetem. Há aqueles  cujas origens permanecem em sigilo. E há outros que a mente laboriosa reconhece como estalos físicos. 

Quer exemplos? A geladeira lá de casa estala. O telhado estala. O vento uiva dizendo que não visto, mas é sentido.

No entanto, o que mais me assombra é quando percebo que o barulho dos argumentos se calam.

Há fantasma maior do que o sentir sem expressão? 


De volta à escola

Muitas vezes eu faço até um pouco de esforço para não viver com o pé no passado. 



Mas quem esquece? Você pode até esquecer detalhes, datas. Eu, por exemplo, não sou boa em datas.

Por isso que, nem sempre, eu não sei quando irei escrever um livro de memórias. A grande desculpa são as sensações, porque eu guardo as sensações. Eu gosto do impacto dessas coisas que ocorrem no dia a dia. As adversidades, as alegrias, todo tipo de emoção, eu guardo. Elas ficam lá dentro, tem um arquivo, deve ter um arquivo enorme.

E, no último sábado, 19/09, eu tive uma experiência tão linda.  A princípio fiquei até mais ansiosa do que a minha neta, Mariana.

Fui levá-la, a pedido da mãe, que estava em viagem, para a nova escola, para participar de um encontro - um momento em que a escola falou sobre a acolhida, sobre o teste comprobatório para concorrer à bolsa, que irá diminuir o impacto financeiro das mensalidades.

E lá estava eu. Normalmente quando eu vou deixar a minha neta, eu pego o Uber e, ao mesmo tempo, solicito o retorno para casa. Só que naquele momento, eu simplesmente esqueci de fazer isso.

Sabia que não precisava ficar na escola, que ia levar mais de três horas, mas entramos juntas. De repente tudo muda. Você está num outro mundo. A escola é um mundo novo, sempre será um mundo novo. Desafiador aquele momento, que te prepara para tantas outras coisas.

E muitas vezes, quando a gente está vivendo, a gente nem presta atenção. Aí enquanto eu estava na pequena fila, voltei no tempo. Estava no antigo Farias Brito, o primeiro Farias Brito da Avenida Duque de Caxias, esquina com a Rua Major Facundo, bem pertinho da Igreja do Carmo.

Vi-me com aquela fardinha verde, com uma lasquinha de lado, um shortinho por baixo, parecia um vestidinho. Foi lá que me preparei para o meu vestibular, para a vida. Isso bem antes das mudanças que ocorreram.

Foi lá onde encontrei amigos e contei com o apoio dos professores. São lembranças maravilhosas. Falei sobre essa viagem do tempo para a minha neta, lembrando que o seu irmão também, quando, na primeira vez na escola, foi conduzido por mim. 

Com a sensação de estudante ainda, pergunto: Por que não voltar ao passado? Por que não percorrer essa linha do tempo,  ver o quanto você cresceu? 

Não é ser vintage, não é viver com o tempo passando, mas é você respeitar todos os seus momentos de crescimento, dos quais você esteja dando conta ou não.

E hoje eu percebi que, com 71 anos, continuo crescendo.



Ser altruísta


 Pensamentos altruístas. Quem os têm em maior quantidade(?!)


Acredito que a mulher. 

Quem mais pensaria em usar batom para esconder um grito que aprendeu, desde cedo, ser reprimido?

Quem mais usaria a melhor roupa para mostrar uma dor que não se revela?



Imagem site todamateria.com

Quem mais sorriria o sorriso mais ensaiado, proscrastinando o choro que aprendeu a ser "engolido"?

Quem mais sonha.... sonha.... com pés grudados ao chão e mãos espalmadas numa atitude ansiosa de uma queda que está pra  vir?

Sim, a mulher é altruísta até mesmo quando se esconde.

E quem quer ver a mulher pronta para uma luta que não é sua

Em combate porque disseram que assim é ser guerreira?

E que porra de guerra é essa que tem começo mas não tem fim?

Diz August Comte!


Pássaros

Sempre gostei de ouvir pássaros. 

                                                         Créditos: depositphotos.com / steve_byland
Cantos maviosos.

Eu sempre soube que havia uma razão para os concertos matinais.

Uma chamada da Natureza, impulsiona-os

Sons que se repetem e encontrem eco em outros

Há pessoas, que me falam, que soam como pássaros

Suas falas são convites 

E as minhas respostas são silenciosas

Porque curto ouvir a passarada

Sei que, em muito pouco tempo, os cânticos passarão

O silêncio substituto faz eco em mim

Imito-o

Deixo ecoar o que os ouvidos sentem falta

Eu gostaria de soar igual a um pássaro

Ser agradável quando falar

Aí, lembro que algumas aves tem um som incomôdo

Então, uso o voo para imitar-me

Atendo ao chamado da natureza

Aposentando...

 Você já se aposentou, não é? 

A interpelação de uma desconhecida veio assim, do nada!

Fico cismando o pensar o porquê da pergunta.

Qual a impressão que causo? Por que, justo uma mulher faz a indagação?

Perguntas que não calam, nunca!

Se for jogar para o lado politicamente correto, estarei sendo alvo de etarismo?

Palavra estranha para lembrar que tenho direitos que vão além da aposentadoria.

Fico jogando ao chão toda uma trajetória de vida: riscos, perdas, ganhos, sorrisos, lágrimas, enfim, emoções sendo exploradas por mim rotineiramente.

E você, interlocutora. o que te motivou me dar um bom dia tão diferente?

Tira o S

Em momentos de quebra fui cola

Quando rasgou, costurei

Usei acessório para a fissura não ser percebida

Quando trincou, evitei atritos para a quebra iminente

Quando soltou, segurei

Quando a luz apagou procurei o interruptor

Quando a lâmpada queimou, troquei

Cola, agulha, linha, habilidade

Lembro sempre de um amigo

Que dizia no momento da crise, tire o S


De frente com o front

https://www.significados.com.br/equilibrio/

Quando o front não te mostra o que está para vir com a nitidez do olhar no futuro.

Do que estou falando? Do meu corpo que esqueceu como sentar e levantar em seguida. 

Nunca dantes havia imaginado que isso me ocorreria. 

Como assim quadril? Perdeu a sintonia com as pernas? 

Agora, dá pra ver e ouvir os sinais que o corpo indicam. Nem para escutar, nem para ver. 

Apenas aquela sensação de que o equilíbrio é uma coisa do passado! Seria mesmo? Agora me deparo buscando na internet, formas de sentar e levantar sem que as posições sejam constrangedoras. 

Gostaria de ser mais ágil, assim como o meu pensar que não conheceu (até agora) limites. 

Vou reaprender os movimentos do corpo que está me deixando sem muitas opções. 

Afinal, enquanto habitar esse "vaso" preciso seguir adiante com os movimentos do espírito. 

 

Mistério do som

Os sons misteriosos da minha casa. Eu sempre apreciei. Aguçam-me o sentir do desconhecido.  Eu sempre fui fã dos sons não apresentados com b...