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O gato comeu?

 Um dia, sem mais nem menos, percebi-me sozinha. 

Ué, cadê a turma que estava aqui? 


O tempo, como um gato, teria comido?

É que eu deixei de oferecer doces aos gatos. 

E eles, sempre querendo mais, foram em busca de outras doceiras.

Sem nem ao menos perguntar porque eu amargava.

Feliz sem saber?

Um dia desses fui surpreendida com o convite de falar sobre a felicidade para pessoas que não tinha convivência, mas que iriam me dar ouvidos mesmo assim, na busca - talvez - de entender sobre os seus momentos aflitivos e/ou suaves. Fiquei impactada. Isso, porque à época com o auxílio do Evangelho, divagava sobre a orientação de que "felicidade não é coisa deste mundo". E eu estou neste mundo de meu Deus até quando o ser superior determinar.


Pra complicar a minha falta de noção sobre o tema, fatos domésticos torturaram-me exatos nesse dia. Situação pra lá de vexatória, que me colocaram, como mãe na defesa da cria. À proporção que o dia passava, às voltas com a literatura de auxílio, a felicidade que sentia estava limitada. Finalmente, chegou a hora e fui!

Diante de um salão lotado - e com certeza não estavam lá por mim - esforcei-me para ser leal à plateia. Falar para quem não conheço tem sido uma das minhas principais funções, já que faço rádio. Com um sorriso acolhedor, mirei os presentes ao mesmo tempo em que rogava por auxílio. Senhor ajuda-me a ser útil. Cruzei com os olhos o espaço fazendo Z e X para os rostos atentos e- que beleza - receptivos!

Saí-me com uma desculpa salvadora: Estou aqui porque me pediram para falar sobre felicidade. Felicidade... o que eu sei desse sentimento? Dessa sensação? Seria a pessoa certa para tratar desse tema? Pronto! a partir daí, fui tão sincera que os 50 minutos da "palestra" voaram.

Mereci os aplausos finais? Não sei, talvez pela minha coragem de não ter desistido mesmo com o sentimento de que ali não deveria ter ido. O que importa agora que fico feliz por ter tido esse contato, que se repetiram em outras vezes, falando não como uma palestrante sábia, mas como uma pessoa simples, em busca também de respostas para tantas perguntas que não me deixam ouvir as  respostas. Por isso, o silêncio em si se faz tão necessário.

Flutuação

Nada é mais impaciente do que o cursor sobre o espaço em branco a espera das letras, que surgem num teclar rápido, célere, bem além do pensamento. Sequer dá tempo para entender o que vai sendo explorado, num sentir flutuante.

Escrever - já me disseram, é um vício- e nessa dependência continuo eu em busca do íntimo que se esconde. Nada me é mais conhecido do que eu mesma e nada é mais desconhecido do que a minha pessoa. Conviver com o desconhecido faz de mim um número aleatório.

Nesse liquidificar de emoções, quem sou eu e que pretendia ser? Um monte de vozes, de silêncio, de aceitação e rejeição. Ninguem torce mais por mim do que eu mesma e ninguem consegue agredir-me tanto!

Agora entendo porque as pessoas estão substituindo "peças" originais por próteses. Disfarçar é bem mais fácil.

Iso(lados)


Eu já tive lados, que foram mais de quatro. No enquadramento fui triangular: eu, você e os outros, que falaram mais, que ditaram mais.

Os meus lados - arredondados pela lâmina do passado -  querem a circunferência da vida que retorna.

Eu já tive partes, que foram segmentos inventados, traduzidos por equívocos. O todo que se perde num monte das coisinhas, que me oferecem.

Eu já tive arranjos, que não foram flores, apenas vasos.

Pelos se(s) da vida....


Se me vir chorando. Deixe o desaguar sem pressa de ficar. 

Se me vir rindo imagina o que pode me tornar feliz e participa desse colorido momento. 

Se me vir gargalhar, faz eco, revira-se pelo avesso da dor.

Se me vir calada, não me insulta a palavra pensada e se me vir tagarelando, empresta o ouvir e olha-me nos olhos.

Se me vir aflita, serena o teu pensar. 

Se sentir calor no meu olhar, refugia-te. É o abraço que há tanto estendo em tua direção.

A propósito de Florbela Espanca...

Eu sempre quis amar e este amor me foi apresentado de variadas formas, matizes.

Cinzas para não prenunciar a idade primaveril e vermelho sangue da paixão que arrebata!

Amarelo, prenúncio de  risco de afogamento na ânsia.

Dores doridas sem oxigênio, implodindo cenas desagradáveis, sem paternidade, mas com muitos autores.

Assinaturas sem crédito.

Quadro

No mundo das artes quero ser o pincel com a liberdade de correr pela tela espalhando cores vivas!

Quero fotografar o amanhã do observador, que não vai perceber a ideia lançada na essência do recriador.

Quero vencer o tempo que amarela a lembrança. Sim, porque o quadro permanece apesar das traças do esquecimento.

Quero manchar a roupa do artista com marcas perpétuas que o solvente apenas faz brilhar.

Quero chá

Uma xícara de chá sempre lembra calmaria, com o olhar sem muita pretensão para a fumaça que se esvai, prometendo um gole quentinho. Nem  sempre vou atrás do sabor, só o calor importa neste momento. Aos poucos, o corpo aquece a partir da glote.

Quando garota viajava no tempo dando ouvidos ao som dos goles aflitos. Isso porque quando criança a gente tem sempre pressa para que o alimento faça a sua função.

Depois, uma mesa (não importa o tamanho), um livro aberto, canetas sem tampas numa aflita vontade de  espalhar a tinta sobre o papel em forma de pensamento. A fumaça é o transporte para uma viagem sem retorno.

O pensar que extrapola o papel encontra destino num olhar descuidado. Nem tudo que se deita em folhas levanta ideias.

A xícara foi esquecida e o vento arrasta as folhas escritas sem piedade, que alçam voo desatinado e o olhar fica preso à distância de que nada vale a corrida do que se foi.

Biscoito


O ensinamento, diário muitas vezes oculto, fica próximo ao peito. O coração não diz porque o cérebro ocupado não escuta. E até mesmo o sentido do tato é relegado.

Desejo que os meus amores sejam como o biscoito, que caiu no bolso da minha camisa enquanto tentava matar a fome. Escorregou da mão e sumiu de vista. Olhei para baixo e apenas dei com o azul do carpete.

Horas depois, ao ter o corpo trêmulo de dor solidária pela morte do pai de uma amiga, toquei sem querer o lado esquerdo e senti algo mais firme. Estranhei, abri o orifício do bolso e lá estava o biscoito, que mesmo ignorado permanecia próximo a mim. Se você me ama, seja o meu biscoito, amigo do peito.

Favorito

Quando eu amo coloco o meu amor no topo da lista dos favoritos. Nem penso em deletar, bloquear e, muito menos, ficar off line. Evito novos contatos - em todos os sentidos.

Filtro as noias e o spam das dúvida. Cesso o cursor para evitar caraminholas no meu rico arquivo de experiências.

Esqueço todas as senhas que me levam ao desgosto. Documento novos conteudos, novas mídias.  Costumo rever tags antigas, que recebem novos aplicativos.

O virtual é tão real quanto as cartas de amantes, que demoravam meses atravessando oceanos, amarelando com a saudade.


A gente quer gente, mas...

Os salões de beleza são os redutos para confraternização. Já tive inúmeras conversas com milhares de cabeças tingidas. Não morro de amores pelos estabelecimentos que só busco pra cortar o cabelo. Em defesa do meu dinheirinho, pinto os brancos e faço pés e mãos em casa.

Acontece, que no último sábado, tive uma oportunidade bem diferente no salão próximo à minha casa. Por ser muito cedo, erámos apenas dois clientes: eu querendo ficar mais bonitinha e um professor aposentado. Depois do tradicional bom dia, confesso que fiquei muito a vontade, com aquele monte de "piranhas" prendendo os meu cabelos, cara sem maquiagem e ele me olhando, puxando conversa.

Aproveitando a deixa de estar tão desarrumada, ataquei na maior sinceridade, já que falávamos sobre antigos relacionamentos: O que você não mais faria por uma mulher? E ele, depois de uma certa demora: responder às cobranças, do tipo onde estava, a que horas e com quem? Ora, respondi. A pessoa quando estar alguem quer estar perto!

Na base da simbologia eu não espremeria mais laranjas, sem ligar o espremedor, para não acordar o dorminhoco. Acredita que eu fazia isso? E ele, sorrindo entendeu, curtindo a expressão "reincidência" para nós que nos apaixonamos e dividimos teto com outra pessoa mais de uma vez, que hoje incomoda se não baixar a tampa do sanitário depois do uso; que transtorna se não dá notícia - naquela base de nada de cobranças - e que aporrinha o meu mais novo amigo professor, se a moça pernoitada, não lavar as louças do café.

Agora, vejo com muita clareza, que depois de um certo tempo sozinha, a gente começa a se sentir autosuficiente. Eu, desde cedo aprendi a trocar lâmpadas, o botijão de gás, pintar paredes, e o principal, garantir sustento sem pensão. Não me sinto orgulhosa pra ser franca. Eu ainda prefiro um par de pés coçando os meus numa boa rede.

Certas pessoas

A relação com certas pessoas é como aquele livro, que apenas deitei um olhar sem curiosidades, por não prometer surpresas. A vida precisa desses estímulos.

É como um corte novo no cabelo, uma cor mais clara, mesmo sabendo que o branco vai lembrar as pratas, que apostei no caminho nem sempre tortuoso, nem sempre reto.

A intimidade com certas pessoas não passa do quarto, porque ao chegar à sala é como se fosse uma despedida de alguem, que te oferece algo, que você sabe não necessitar.


A despedida de certas pessoas é como um naufragar na melodiosa saudade dos que acreditam, que amor precisa doer. Com outras, é como ganhar um par de asas. Exige esforços, mas se consegue continuar respirando, oferecer ao vento a sorte de um espaço infindável a conquistar.

Gentileza


Estou em busca da gentilidade que existe dentro de mim. Costumo ser intolerante com o pensar que escapa.

Costumava ouvir desde menina - a gente só dá o que tem. Pensava no material, muito mais simples para dispensar ao outro. Mesmo assim, pra quem tinha pouco, faltava-me a vontade voluntária da doação.

Hoje, com apego menor aos bens(?) materiais, tento dividir o que tenho, numa busca incessante de preencher as lacunas desta vida. Descubro a tempo: a gentileza tem geração quase expontânea. É apenas um clique que o sorriso confere para uma existência de cara amarrada.

A Arte ilimitada

O que seria de nós sem a arte? Onde mais eu veria a criatura criando, ao invés de destruir? Somos bombardeados(!) o tempo todo pelas mídias....