Permissão


Por muito tempo e, acredito que até hoje, por mais estúpido que seja, nós mulheres precisávamos pedir licença para existir. 

A existência da individualidade nos foi negada. 

Só a respiração, pelo seu processo natural, nos era permitida sem a devida permissão dos "donos". 

Não, não éramos e nunca fomos coniventes com situações assim. 

Éramos constrangidas a "aceitar" para continuarmos sobrevivendo.

Agora, cismo o pensar: a quem devemos pedir licença? 

E quem nos deve permitir tal feito?

Vendo-me por dentro, percebo, sempre que posso, que a permissão para continuar nunca foi invertida. 

Ou seja, não me dava conta de que precisava solicitar a mim mesma, licença, alvará, seja lá que nome receba, para continuar em busca do que mais preciso. 

Será que o meu pedido de licença expirará um dia, antes mesmo, que seja concedido? 

A filosofia como morada

 Lendo uma pequena informação sobre o trabalho do filósofo Henry David Thoreau, cismei o pensar a respeito do meu eu, naquele descortinar que busco sempre para alcançar-me. Lembro que muitas vezes evitei esse contato porque, não percebia, mas eu fui (acho que continuo sendo) a minha desconhecida. 

O filósofo em questão coloca, de uma forma clara, que em sua casa havia três cadeiras: uma para a solidão, uma para a amizade e uma para a sociedade”. Sentar na primeira significa um encontro quase que real do íntimo; na segunda cadeira, a busca pelo outro e na terceira, a persona que à sociedade se apresenta.

Para o filósofo que defendia, o que para muitas pessoas virou tendência, o pouco enriquece muito mais do que o acúmulo. Nessa viagem interior, Thoreau viveu afastado, numa pequena cabana situada numa floresta, durante dois anos. 

E eu, aqui, quantas vezes me perdi, na densa floresta dos meus pensamentos. 

Quantos assentos ocupei, numa tentativa de encontrar-me, deparar amigos e ser aceita numa sociedade que só impõe costumes, dos quais quero
fugir.

Ah.... quem disse que a filosofia pode ser vã? 


Ah....a poesia

 


A poesia nem sempre desponta ou aponta para algo que costumeiramente está à nossa frente. É como diz Adélia Prado: olho pedra e vejo pedra mesmo. 

São nos descuidos da alma flutuante que a pedra deixa de ser material. 

A poesia não é pra ser descoberta. Ela mora em todos os lugares. Em todo o ar que se respira. 

Nos momentos de dor, ela submerge em busca de ar, para outra vez conquistar a superfície. 

Pensamos que a dor nunca vai passar, mas passa. Pensamos que tudo é eterno, mas não é. O pensar latejante de Clarice Lispector nos desperta para a instalação do poeta, que depois de afundar, aprendeu a nadar. 

A poesia já me foi dolorida. Noutros momentos, surpreendente!

Em outros, merecedora de todo a minha atenção.

Em tudo vejo poesia, assim como o jornalista Alberto Perdigão nos fala sobre a essência que não quero perder. Não preciso passar por essa transformação. 


A imagem é de Michael_Pointner


Chão de flores


 A vida é uma grande estação. Sentimentos que vêm, sentimentos que vão e sentimentos que ficam. 

É preciso ser estação, base para os que vão e para os que permanecem.

Todos os dias, eu me despeço de algo que me dá muito prazer. 

Mas costumo reter os que incomodam. Nunca parei pra pensar se eu tenho algum problema com a felicidade.

Hoje, com o utensílio mais conhecido no mundo, que é uma vassoura, voltei a varrer o meu quintal, deixando à mostra seu piso e tirando flores.

 Essas flores coloridas, belíssimas, de vida tão efêmera, caem sempre do jasmim, largando no ar o seu cheiro.

E eu não considero isso uma sujeira. As flores, assim como as folhas, elas não sujam. (1:37) Elas só seguem o que a natureza manda.
Saíram de uma semente, cresceram, viraram flores, me encantaram,  deixaram meus dias mais coloridos, mais alegres.  E eu agora as varro. Não é um lixo.
Mas eu preciso livrar meu chão para que novas flores venham. Não se acumulem, não se estraguem. Não embotem a vida.
E assim elas seguem. As flores que caem, porque não mais se sustentam nos galhos. Vão para o chão, seguindo a gravidade.
Me livro delas, porque sei que outras virão.

Lembrança irônica


Eu li há pouco a frase que diz ser contraditório ficar triste com lembranças felizes. Fiquei refletindo a respeito, vendo em mim, que as boas lembranças, as que costumo chamar de felizes não me dão nostalgia. 

Eu, em muitos momentos, chego até a sorrir.

Olhar para uma foto flagrante de um sorriso verdadeiro, roubado pela câmera do fotógrafo, é estupendo. Volto no tempo para lembrar a razão, o motivo que me deixou tão escandalosamente feliz.

Sim, porque ser feliz é um escândalo. Uma forma quase que inesperada de alegria incontida. 

Que ironia ficarmos tristes com lembranças felizes (desconheço a autoria) é uma chamada para continuarmos criando mais tempo feliz. 

Se um dia, a felicidade me visitou, ou se me visita sempre, devo alimentá-la. Deixá-la bem saudável para que me alcance sempre, mesmo que por cegueira minha, corra para evitá-la. 

A menstruação ainda é tabu!

Acredito hoje, na maioridade(!!!) que a maior libertação foi a menopausa. Tirando os efeitos (calor intenso, fadiga, farnizim e a vontade de mandar todo mundo se lascar) a menopausa é um alívio para mim. Ser chamada de 


menopauzada pesou, e muito. 

No entanto, ganhei um vale bônus. Os inúmeros pacotes de absorventes sairam da cesta básica. E, agora, fico lembrando do tempo dos paninhos. Aqueles pedacinhos de tecidos brancos que ficavam com manchas vermelhas, tiradas a muito custo com o sabão em barra. Lembro até da marca do bastão, Pavão. Pra mim era a pior parte porque a minha jogava de volta para a bacia de alumínio (não havia tanque de lavanderia) para serem lavados outra vez, até que o branco genuíno retornasse.

E você, que me lê, deve estar se perguntando por que trago esse tema hoje. É para me libertar da angústia de saber que no mundo, milhares de meninas, mulheres no período menstrual não contam com higiene nesse período. São 500 milhões no mundo. 

É para libertar o sentimento de indignação de saber que muitas de nós somos submetidas, maltratadas durante esse período. Que o preconceito ainda nos cerca. A menstrução causa vergonha, ainda!

Desde o início da história da humanidade que a mulher é tida como ser estranho por conta do sangramento. A rapper brasileira Bivolt, aborda em Dignidade pra Fluir,  a pobreza menstrual e a falta de acesso a absorventes. Pagu tornou-se um hino feminino clássico, em que Rita Lee ironiza o tabu que envolve o ciclo: Mulher é um bicho esquisito, todo mês sangra.

A imagem eu capturei do site https://www.sara.com.br


Delete ao meu deleite


 A força do delete é impressionante. 

Assim como outras teclas que nem sempre são usadas por conta da presença do mouse. 

Precisando fazer um backup para a função apagar sem deixar vestígios de frases soltas, medos sem origem visível ...

A quantas andam os passos furtivos da memória, que molesta a presença do momento?

Nesse baú de lembranças, há que se deparar com coisas que significaram muito e que tiveram, viveram o auge, no seu devido tempo.

Acabei de ler uma frase interessante viver não é sobre esperar a tempestade passar. É  sobre aprender a dançar na chuva. Não se conhece o autor com precisão, mas o convite à resiliência é atribuída à escritora americana Vivian Greene. 

E eu, por aqui, em busca do discurso para dizer ao ego, repetindo que não devo apenas dançar na chuva, mas também, cantar na chuva, imitando o espetacular Geny Kelly.


Apostando na velhice?


 Ensaio para velhice. Como seria? Tirar fotos escondendo as rugas do pescoço. Aquele formato que ninguém gosta, lembrando a papada de um peru. 

Esconder os braços flácidos com mangas longas. Levantar os olhos e o queixo na hora da selfie. Aumentar volume dos lábios para disfarçar o código de barras que insiste, que salta aos olhos. 

Ninguém te prepara para ficar velho. A aposta é na juventude eterna, como se envelhecer fosse algo obsceno, criminoso. 

Aprendemos desde cedo que lugar de velho é no fundo da rede. É aquele traste que demora a morrer. 

A planta esquecida no vaso do canto da sala, que só é tocado quando é necessário varrer atrás. E quem vai olhar para as costas de um vaso pesado, no canto esquecido, lugar ideal para aranhas e outros peçonhentos? 

Figuras famosas, como a Oprah, afirmam que envelhecer é uma merda! Rita Lee que rompia tudo, também comparou a velhice à uma ameixa seca, ao mesmo tempo lembrando da importância da fruta para desencalhar o intestino. 

Olho-me no espelho, somente eu e aquela peça que já me mostrou como eu fui uma grande aposta física. 

Na verdade, o envelhecer é um grande aprendizado. A gente pensa que já deixou a sala de aula da vida, aí tudo muda! Você passa a lidar com as limitações. O vigor do corpo não se retém com exercícios, o máximo que se consegue é fortalecer os músculos, para que o andador seja adiado. 

O que mais temo na velhice é perder a individualidade. Deixar de fazer coisas simples como passar um café, a minha bebida preferida. Caminhar no jardim, arrancar matinhos para que as flores continuem me encantando. Pegar um uber sozinha, tomar chopp, vinho, comer sabores novos para um paladar já cansado de tantos temperos. Nada é mais temível do que a perda da individualidade. 

Conheço idosos que são cumprimentados quando visitas chegam para os mais novos da casa, apenas na entrada e na saída. Ninguém puxa um assunto porque sabe já de cor o que ele tem a dizer. E o que é a vida, se não uma grande repetição? 

Gentilezas, amor sem limites


 As gentilezas surpreendem. 

Estamos tão acostumados a lidar com dificuldades, que quando ocorre de uma pessoa que você nunca viu e lhe faz um gesto, sem nada dizer, mas que te auxilia muito, é uma surpresa brilhante. Te toca a alma. O coração passa a ser ouvido porque salta de alegria.

Estou falando de um garoto desconhecido. 

Estava na encruzadilha da avenida Pontes Vieira e a Rua Barbosa de Freitas, tentando entender porque o sinal vermelho para pedestres coincidia com o sinal para os carros. 

Estavamos ali parados eu e os carros. 

Aí, ele veio, um belo adolescente. Olhou para mim de soslaio, com brilhos nos olhos. Tirou o fone de um dos ouvidos, apertou o botão que aciona o semáforo para pedestres. 

Julguei que também iria atravessar. Só que não. Recolocou o fone no ouvido, deu uma última olhada e seguiu em frente na avenida Pontes Vieira. E eu agradeci em pensamento e solicitei aos céus que o iluminasse sempre!

A sorte vem dos biscoitos


Hoje quero quebrar o biscoito para ver o que a sorte me envia. 

Os biscoitinhos eram mimos de restaurantes orientais, aqui na minha cidade, para quem devorava aquelas comidas gostosas e leves.

Comer diferente nos leva a lugares diferentes. 

A sorte enviada pelos biscoitinhos serviam como passagens para tempos remotos de uma infância assombrada. 

Cresci ouvindo coisas, vendo coisas. .. Frutos da imaginação? 

Diziam que era bem doida e nessa maluquice cá estou eu, em busca de mais assombros. Isto, porque a realidade nossa assusta muito mais e não oferece saídas inteligentes, enquanto que o irreal(?) me transporta para diversas trilhas, que por sorte, me permitirão encontrar-me. 

Eu e o Universo

 O pensamento se repete assim: de vez em quando o pensar do outro chega a me incomodar até que descubro que apenas faço ideia do que a pessoa possa pensar. 

Que ousadia a minha chegar a querer saber o que passa na cabeça do outro. Na verdade, é na minha cabeça que tudo mora. 

Olhando para os lados, em todas as direções, percebo flagrantes que antes não me eram notados. 


O ceu na sua infinitude, as paredes fixas roubando a cena, o barulho que a mente faz quando os olhos não captam o que a Natureza representa. 

Eu e o Universo, pomposo, rico, maravilhosamente imenso, diante da minha pequenez nem sempre serena. 

O que eu poderia ter feito/fazer para percebê-lo? 


Quando falar

Em muitas ocasiões quando falo fico me perguntando se deveria ter me calado.

E, quando calo, se deveria ter falado.

Nesse conflito íntimo, dou vazão aos questionamentos outros

que me invadem sempre.

Em muitos momentos tive prazer de fazer calar o interlocutor invasivo.

Noutros, gostaria que o silêncio fosse o companheiro mais constante.

Quer saber, nem sempre respondo porque não sei o que dizer.


Mulher, o que podemos?


Estava aqui matutando sobre o que a mulher não pode. 

Essa conversa  - que não é mole -começa cedo, a partir das meninas que não podem brincar com meninos (porque eles são grosseiros?) ; correr provoca varizes; garotas de família(?) tem que se comportar! 

A cultura do que não se deve fazer criou raízes em nós e abriu uma fenda nas relações.

Não me admira ouvir ainda hoje um representante masculino - acredito que ele só falou por si mesmo - de que mulher, além de não entender sobre futebol(até hoje estou para entender o que tem de tão complicado) deveria apenas cuidar do que é do seu interesse(!) cuidar de casa e alimentar o maridinho.

A cultura machista não tem que ser vencida apenas pelo homem, mas por nós mulheres, que de certa forma ainda alimentamos - sem a nossa anuência - esse estigma pelo simples fato de sermos mulheres. 

Digo, que em casa, precisamos mostrar o outro lado da moeda para os nossos filhos, os netos, os sobrinhos.... acredito que a transformação deve ser de dentro pra fora. No nosso ambiente familiar, o que estamos repassando?

Vencer a violência é armar-se de argumentos de solidariedade, de gentileza e, principalmente, da necessidade premente de querer sermos melhores.

O tempo e as respostas

Um pensamento outro

Uma verdadeira história de vida

 me convida a pairar no tempo

sem cobranças

lembranças bem amiúde 

e na voz quase sussurrante de Nana Caymmi

eu canto, saudando Aldir Blanc e Cristovão Bastos: 

Batidas na porta da frente

É o tempoEu bebo um pouquinho pra terArgumento....

Intimidade

Um dia, assim, de repente, vem aquele pensamento. 

É o meu juizo conversando comigo. 

Nem sempre sou plateia desse ator, mas hoje, resolvi ouvir. 

E não é que eu aplaudi?

Do palco da vida ao qual eu me alço, ouvi, sentindo no âmago, a frase é sempre bom manter limpo o porão ao qual você visita e fica lá por muito tempo. 

Isso é comigo, mesmo? 

Ou seria apenas um lampejo de conversa, nem sempre séria, do meu íntimo?

Essa tal intimidade é tão adulta às vezes. 

E, de repente, me dou conta de que o tempo todo, ou quase sempre, a adultice me chateia.



Sempre Reginaldo Rossi


 "Você é o meu pedaço de mau caminho. A medida certa para o meu carinho. A coisa mais linda que eu conheci. " A música de Cezar e Cirus ganhou vida com o poeta Reginaldo Rossi. Diz com todas as letras o que nós queremos ter e ser. Se amar é breguice, que a mulher, menina, adolescente brega em mim, permaneçam!

Se o livro me conduz para caminhos mágicos, onde eu possa ser liberta, a música é o carro que me transporta.

Um grande viva Reginaldo Rossi. Eu sempre soube que você, poeta, alimenta em mim o que eu nem sempre evitei. Isso, porque quando eu amo sou entrega total. Mas, também quando caio fora...


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O gato comeu?

 Um dia, sem mais nem menos, percebi-me sozinha. 

Ué, cadê a turma que estava aqui? 


O tempo, como um gato, teria comido?

É que eu deixei de oferecer doces aos gatos. 

E eles, sempre querendo mais, foram em busca de outras doceiras.

Sem nem ao menos perguntar porque eu amargava.

Permissão

Por muito tempo e, acredito que até hoje, por mais estúpido que seja, nós mulheres precisávamos pedir licença para existir.  A existência da...