Sem rebolado

Uma queda esquisita me fez bailarina sem música clássica. Mas a dor sentida até o âmago do ser, ficou longe da intensidade do parto. No resguardo, trabalhei quinze dias na cama. Interessante quando parte do corpo não corresponde à sua vontade. Como andar com uma perna só? Quicando, naturalmente, carregando os meus quilos ganhos a custa de muita comida boa.

 Pois é... estava tão serelepe naquela noite de sexta-feira. Eu só queria um pouco de água para regar o corpo enquanto um sono me levaria a sonhos da vida. As pernas começaram a se afastar num escorregadio chão. Nem deu pra saber o que provocou. Quase um mês depois, ando sem nenhum rebolado. Gelo, massagens e salto baixinho. Receitas para recuperação.

Na infância

Eu fui uma garota feiinha. Cabelos longos até demais, muito pretos, olhos apertados, branca,  amarelada - até hoje não sei bem qual o nome da minha desbotada pele, que graças ao sol, muda o tom - tinha medo de tudo, inclusive da sombra.

Cismo o pensar para buscar no arquivo da memória algo que me deslumbre dessa passagem da vida. Uma imagem reflete o tempo: o velório do meu avô. Tinha quatro anos e o cheiro das flores de jasmim sinto até  hoje. Ele foi o meu amigo mais efêmero na presença física.

A minha avó paterna, tinha longos cabelos pretos, pareciam com os meus. Dela recordo um carinho para aliviar uma dor abdominal e um sorriso que o tempo vai apagando.

Eu nem queria ser tão melancolica, mas sempre considerei que a infância é um dos momentos mais ricos e mais temidos devido à sua fragilidade, a sua beleza indefesa. Fui educada como pessoa pequena e o não sempre foi tão marcante...

E chegou a desejada adolescência, com suas cólicas mensais e uma irritabilidade que provocava a tolerância materna. O corpo prometendo e os olhares mais frequentes. Os compromissos na escola... Ah, a veia poética correu com vontade nos quilômetros mil das artérias. Foi quando vislumbrei um futuro de escritora famosa, sem nunca debruçar de verdade para o êxito da fantasia. Este sonho, ainda não larguei.

Despeitada

A despeito de qualquer definição que eu possa fazer sobre mim mesma, admito o despeito. Tentando seguir o conselho de conhecer a si mesmo, o meu self é revelador. Sempre foi. Eu que não dava ouvidos e cerrava os olhos diante do filme da vida em exibição sem dar crédito à direção.

O despeito é o resumo do que o espelho da mente reclama luz para refletir em mim a sobrecarga das emoções negativas. Eu sempre subestimei as minhas qualidades para dar vazão aos talentos orientados por superestimadas negligências.

O diabo que o outro que não me conhece, consegue despertar com suas críticas, exatamente o que pretendo expelir sem recuos: é por isso, que de vez em quando o pensar lateja você sabe com quem está falando.


Reprovada

Nos zeros do boletim da vida, o que me faz sempre repetir é a cadeira de amor. Cabulei tanto as aulas, mesmo assim continuo matriculada na escola, que não desiste da ignorante aluna. Lembro dos primeiros dias de disciplina  quando queria ser a queridinha da turma humana. Pequei por palavras e obras.

Agora repetente, com trabalhos extras de recuperação ensaio artigos para conquistar quem no passado cobrava atenção, sentindo que o amor seria um prêmio merecido  e que o outro, o próximo, já estaria com notas azuis apenas atendendo ao meu apelo.

Moral da história: se quero amor, amo antes. Agora tenho que começar do zero todos os dias. Aceito os desenhos de corações coloridos. Para quem não universalizou o  sentimento ainda, rabiscar papel é o exercício da mente que quer ser preenchida com gratidão.


Roubo da coroa

Fui roubada e para escapar do criminoso me aliei a outros ladrões. Um deles, o tempo, que corre e nem a polícia mais ágil é capaz de pegá-lo. As joias das conquistas não foram reconhecidas e fico me perguntando por que diabo corri tanto?

Nada mais ilusório do que trofeu. Faz-se a festa, você agradece com sorrisos e a prenda fica comendo poeira porque é passado.

Na cozinha, fiz sucesso e quase ganho diploma pela gastronomia e hoje continuo engolindo sapos, num verdadeiro desacato à natureza dos anfíbios. Pelo menos, beirando hoje os 60 não ostento o rídiculo título de rainha do lar, porque como tantas outras mulheres estou grávida de ansiedade diante de um mundo que numa hora me aplaude, noutra me abate.

Nem posso dizer que continua vivo o machismo hoje tão decadente quanto salário mínimo, mas a ilógica força destrutiva permanece.

Saudade

Saudade é aquele desejo sem retorno do que a gente quer reviver com o pensar de hoje.

Dai vem a tal da monotonia. Isso, porque na ânsia de viver cada dia mais rápido, saltamos o gosto das ocorrências.

Mas, como nem todo saldo é positivo e nem todo balanço indiscutível, ainda é tempo para deixar curtida a experiência do agora. E deixar que a saudade apenas nomeie o que não tem retorno.

Tingimento

Dizem que nós mulheres temos noias. Os cabelos são os mais afetados, sem dúvida. E lembro que sou do tempo em que ter prateados na cabeça significavam experiência e estimulava por isso mesmo, respeito. Ai veio a tintura. Homens e mulheres colorindo cabelos para disfarçar a idade.

Hoje, o tempo de vida não influi pela preferência aos salões de beleza lotados. São inúmeras as garotas que usam química para mudarem o que ainda não ficou definido.

Estou hoje meio marrom: nem morena, nem ruiva e, muito menos, loira. Tinjo os fios em casa com ajuda sempre oportuna de uma amiga e não nego a idade. Eu gosto muito de dizer que estou quase sexagenária, mas com os cabelos pintados que não abro mão. É que a raiz branca briga com o restante do conjunto.

Lembro uma grande amiga minha que resolveu deixar o alvo tomar conta da cabeleira. Com a demora do crescimento, outras pessoas lhe indagavam sobre o resultado. Reclamaram tanto que a linda resolveu tingir de novo. Pronto, ficou em paz. Certos comentários são tão nocivos quanto moscas no doce.

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...