A filosofia como morada

 Lendo uma pequena informação sobre o trabalho do filósofo Henry David Thoreau, cismei o pensar a respeito do meu eu, naquele descortinar que busco sempre para alcançar-me. Lembro que muitas vezes evitei esse contato porque, não percebia, mas eu fui (acho que continuo sendo) a minha desconhecida. 

O filósofo em questão coloca, de uma forma clara, que em sua casa havia três cadeiras: uma para a solidão, uma para a amizade e uma para a sociedade”. Sentar na primeira significa um encontro quase que real do íntimo; na segunda cadeira, a busca pelo outro e na terceira, a persona que à sociedade se apresenta.

Para o filósofo que defendia, o que para muitas pessoas virou tendência, o pouco enriquece muito mais do que o acúmulo. Nessa viagem interior, Thoreau viveu afastado, numa pequena cabana situada numa floresta, durante dois anos. 

E eu, aqui, quantas vezes me perdi, na densa floresta dos meus pensamentos. 

Quantos assentos ocupei, numa tentativa de encontrar-me, deparar amigos e ser aceita numa sociedade que só impõe costumes, dos quais quero
fugir.

Ah.... quem disse que a filosofia pode ser vã? 


Ah....a poesia

 


A poesia nem sempre desponta ou aponta para algo que costumeiramente está à nossa frente. É como diz Adélia Prado: olho pedra e vejo pedra mesmo. 

São nos descuidos da alma flutuante que a pedra deixa de ser material. 

A poesia não é pra ser descoberta. Ela mora em todos os lugares. Em todo o ar que se respira. 

Nos momentos de dor, ela submerge em busca de ar, para outra vez conquistar a superfície. 

Pensamos que a dor nunca vai passar, mas passa. Pensamos que tudo é eterno, mas não é. O pensar latejante de Clarice Lispector nos desperta para a instalação do poeta, que depois de afundar, aprendeu a nadar. 

A poesia já me foi dolorida. Noutros momentos, surpreendente!

Em outros, merecedora de todo a minha atenção.

Em tudo vejo poesia, assim como o jornalista Alberto Perdigão nos fala sobre a essência que não quero perder. Não preciso passar por essa transformação. 


A imagem é de Michael_Pointner


Chão de flores


 A vida é uma grande estação. Sentimentos que vêm, sentimentos que vão e sentimentos que ficam. 

É preciso ser estação, base para os que vão e para os que permanecem.

Todos os dias, eu me despeço de algo que me dá muito prazer. 

Mas costumo reter os que incomodam. Nunca parei pra pensar se eu tenho algum problema com a felicidade.

Hoje, com o utensílio mais conhecido no mundo, que é uma vassoura, voltei a varrer o meu quintal, deixando à mostra seu piso e tirando flores.

 Essas flores coloridas, belíssimas, de vida tão efêmera, caem sempre do jasmim, largando no ar o seu cheiro.

E eu não considero isso uma sujeira. As flores, assim como as folhas, elas não sujam. (1:37) Elas só seguem o que a natureza manda.
Saíram de uma semente, cresceram, viraram flores, me encantaram,  deixaram meus dias mais coloridos, mais alegres.  E eu agora as varro. Não é um lixo.
Mas eu preciso livrar meu chão para que novas flores venham. Não se acumulem, não se estraguem. Não embotem a vida.
E assim elas seguem. As flores que caem, porque não mais se sustentam nos galhos. Vão para o chão, seguindo a gravidade.
Me livro delas, porque sei que outras virão.

De frente com o front

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