Senta porque tem história

Quem achar que estou chateada porque estou beirando os 60 anos, engana-se! Agora, sentindo uma dorzinha dentro do osso na perna esquerda - tinha que ser na esquerda para fazer conjunto com o cotovelo esquerdo - enquanto sentava, lembrei-me que já me senti como uma cadeira. Uma peça fundamental em qualquer lugar que se habite, com valores diferentes que iam do popular das lojas de liquidação de periferia às raras em antiquários.

Cadeira porque em momentos, suportando pesos jogados num resfolego de cansaço, ora de desânimo; noutros, uma disputa: era de quem chegava primeiro; de quem espera; de recosto para uma leitura; de trabalho ou ainda apenas para ocupar espaço.

Já fui utensílio móvel, aquela peça largada à poeira e só admirada por visitantes. A diferença hoje é que agora sou toda a mobília em lugares diferentes, ruidosa e útil.



Eu só queria ser mais grata...

Eu sou mal agradecida. Tenho amigas, verdadeiros anjos, que sempre batem asas na minha direção em meu socorro. Quando menina e na adolescência vivia pedindo um "sinal" da conexão com Deus. Ficava atenta a qualquer ruido, um toque de telefone ou mesmo uma lufada de vento. Eu não sei porque a brisa sempre me atraiu, numa proposta sem explicação para algo inesperado.

Acho que é da natureza feminina parir ideias confusas, mas que resultam em algo produtivo. Não sei se me faço entender. É como a sensação da dor aliviada do parto. Depois de nove meses com alguem pesando dentro de você e a experiência do ensaio de um amor desconhecido, eis que seu corpo expulsa aquele ser estranho. Ah! é você quem me chutava? E agora, quem vai dormir com um barulho desse?

Acredito que os "sinais" que tanto clamei e clamo estão sempre por perto. Eu é que nem sempre tenho ouvidos e olhos atentos. Uma madrugada dessas, enquanto fazia café para tomar na redação da rádio, reclamava da liseira frequente. Uma voz, que não veio de dentro de mim e nem da casa, ecoou num sinal - este sim, um feedback com o Criador - Você não confia em Deus?  Claro que sim! exclamei girando os calcanhares em busca do emissário.

Eu acho formidável ser gente, mesmo que ingrata, porque é bem mais fácil com tantos auxiliares nos observando e servis na qualidade de responder aos questionamentos, com perguntas bem mais salutares do que as respostas que queremos.


Falando pelos cotovelos

Eu sempre tive problemas com o cotovelo. E o esquerdo é predominantemente de esquerda! Ops! Na infância, o corpo era amparado por ele, que se descascava todo e inchado dava reforço às reprimendas dos pais. Na adolescência, era a parte mais escura do braço, pele ressecada, denunciando a falta dos cremes usados hoje, por obrigação. Escondia, ah, como escondia a minha mal resolvida relação com o cotovelo.

Uma vez maior- não digo ainda adulta - foi razão de cobrança da etiqueta na hora das refeições. O cotovelo tem que ficar abaixo da mesa. Nunca em cima!

Ficando adulta - espero que seja até mesmo depois que a morte me separe do corpo físico -  uma pancada por bobeira no andajá (é como chamo o simulador de caminhadas que uso em casa) cotovelo ganha uma bolsa d'água. O exame médico depois do saco esvaziado denuncia calcificação. Claro que foi no cotovelo esquerdo. Raio X confirma a suspeita e o tratamento com um remédio baratinho, baratinho, devolveu-me o cálcio moderado do esqueleto.

A dor de cotovelo permanece. É a parte mais machucada atualmente ao ver que a mediocridade é confundida com jeito de ser.




Com os calcanhares

Depois de levantar e esquecer que andar de quatro é coisa do passado, descubro depois de uma queda que me deixou de cama durante duas semanas contadas, que não sei caminhar. Ou melhor, pisar. Até então usava os dedões dos pés ao invés dos calcanhares. Quem disse que a gente não aprende a se levantar depois das quedas? 

O diabo é olhar pra trás e ver que o tempo todo poupava o sapato - que posso substituir - ao invés dos pés. A base que se movimenta e me leva para percorrer os ladrilhos de pisos  brilhantes dos sonhos da infância. Criança vive acesa hoje, porque eu sempre sonhei com algo melhor, numa fuga que nem Freud explica.

Andar como soldado em treinamento, pisando firme o calcanhar no chão, passando uma certeza de que sei onde piso? Sei não... Percebo agora, beirando as seis dezenas de vida terrena na atual roupagem que nada sei, que as pernas são para pular e meu transporte físico para situações diversas.

Interessante é saber que na fonte da sabedoria que fuço sem disfarçar o mal estar da ignorância, dou com os calcanhares nos sonhos embalados por uma inércia de atitudes outras e a certeza de que  até agora vivi no chute.

Surpresa!

Luis Fernando Verissimo tem um atrativo muito além do que o pensar apresenta ao ler seus textos. Interessante é essa memória maluca que tenho que não coordena os arquivos com nomes e datas. Estou me referindo a um dos momentos especiais do escritor: "Quando a gente acha que tem todas as respostas,
vem a vida e muda todas as perguntas ..."   

Às vezes penso que a vida é um belo pacote de presente. Daqueles que a gente se preocupa mais com a embalagem do que realmente com o que está sendo dado, ou melhor doado. O que mais dá vontade de fazer ao ver um belo pacote com papel especial e laços adornando? Desembrulhar, é claro! E, dependendo do momento, a ansiedade estraçalha o embrulho.

Vivo de instantes, ou pelo menos, percebo-me assim. Já recebi presentes que mereceram mais cuidados com o externo do que com o conteudo. O pacote foi desfeito com carinho, papel dobrado, laço refeito e guardado. Outro, papel amassado, jogado fora, conteudo usado intensamente. Noutro, o presente é para uma pessoa especial, inviolável, e foi para suas mãos, da forma que recebi.

Há ainda aquele outro que sinto não ser de coração e continua dentro do armário, ocupando espaço, sem uso, esquecido, incomodando no momento de uma melhor arrumação. E fico me perguntando por que diabo ainda guardo...

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...