Biscoito


O ensinamento, diário muitas vezes oculto, fica próximo ao peito. O coração não diz porque o cérebro ocupado não escuta. E até mesmo o sentido do tato é relegado.

Desejo que os meus amores sejam como o biscoito, que caiu no bolso da minha camisa enquanto tentava matar a fome. Escorregou da mão e sumiu de vista. Olhei para baixo e apenas dei com o azul do carpete.

Horas depois, ao ter o corpo trêmulo de dor solidária pela morte do pai de uma amiga, toquei sem querer o lado esquerdo e senti algo mais firme. Estranhei, abri o orifício do bolso e lá estava o biscoito, que mesmo ignorado permanecia próximo a mim. Se você me ama, seja o meu biscoito, amigo do peito.

Favorito

Quando eu amo coloco o meu amor no topo da lista dos favoritos. Nem penso em deletar, bloquear e, muito menos, ficar off line. Evito novos contatos - em todos os sentidos.

Filtro as noias e o spam das dúvida. Cesso o cursor para evitar caraminholas no meu rico arquivo de experiências.

Esqueço todas as senhas que me levam ao desgosto. Documento novos conteudos, novas mídias.  Costumo rever tags antigas, que recebem novos aplicativos.

O virtual é tão real quanto as cartas de amantes, que demoravam meses atravessando oceanos, amarelando com a saudade.


Sem sentido

Eu gosto de ladrilhos, com seus brilhos, o tamanho, tão pequenos e tão lúcidos! São palavras que se encontram num verso para destoar da poesia.

Ladrilhar é pular sobre pedras coloridas da mente que explode muros  de artes. Fazer sentido tem sido a meta humana, quando um simples olhar pra chinelos largados embaixo de uma rede, me faz lançar suspiros muito mais do que qualquer objetivo.

A gente quer gente, mas...

Os salões de beleza são os redutos para confraternização. Já tive inúmeras conversas com milhares de cabeças tingidas. Não morro de amores pelos estabelecimentos que só busco pra cortar o cabelo. Em defesa do meu dinheirinho, pinto os brancos e faço pés e mãos em casa.

Acontece, que no último sábado, tive uma oportunidade bem diferente no salão próximo à minha casa. Por ser muito cedo, erámos apenas dois clientes: eu querendo ficar mais bonitinha e um professor aposentado. Depois do tradicional bom dia, confesso que fiquei muito a vontade, com aquele monte de "piranhas" prendendo os meu cabelos, cara sem maquiagem e ele me olhando, puxando conversa.

Aproveitando a deixa de estar tão desarrumada, ataquei na maior sinceridade, já que falávamos sobre antigos relacionamentos: O que você não mais faria por uma mulher? E ele, depois de uma certa demora: responder às cobranças, do tipo onde estava, a que horas e com quem? Ora, respondi. A pessoa quando estar alguem quer estar perto!

Na base da simbologia eu não espremeria mais laranjas, sem ligar o espremedor, para não acordar o dorminhoco. Acredita que eu fazia isso? E ele, sorrindo entendeu, curtindo a expressão "reincidência" para nós que nos apaixonamos e dividimos teto com outra pessoa mais de uma vez, que hoje incomoda se não baixar a tampa do sanitário depois do uso; que transtorna se não dá notícia - naquela base de nada de cobranças - e que aporrinha o meu mais novo amigo professor, se a moça pernoitada, não lavar as louças do café.

Agora, vejo com muita clareza, que depois de um certo tempo sozinha, a gente começa a se sentir autosuficiente. Eu, desde cedo aprendi a trocar lâmpadas, o botijão de gás, pintar paredes, e o principal, garantir sustento sem pensão. Não me sinto orgulhosa pra ser franca. Eu ainda prefiro um par de pés coçando os meus numa boa rede.

Certas pessoas

A relação com certas pessoas é como aquele livro, que apenas deitei um olhar sem curiosidades, por não prometer surpresas. A vida precisa desses estímulos.

É como um corte novo no cabelo, uma cor mais clara, mesmo sabendo que o branco vai lembrar as pratas, que apostei no caminho nem sempre tortuoso, nem sempre reto.

A intimidade com certas pessoas não passa do quarto, porque ao chegar à sala é como se fosse uma despedida de alguem, que te oferece algo, que você sabe não necessitar.


A despedida de certas pessoas é como um naufragar na melodiosa saudade dos que acreditam, que amor precisa doer. Com outras, é como ganhar um par de asas. Exige esforços, mas se consegue continuar respirando, oferecer ao vento a sorte de um espaço infindável a conquistar.

Fantasias -

Estou com inscrições abertas para o edital que a vida ensina. Não há restrição para os candidatos que se habilitem a conviver com as minhas gargalhadas; noias, neuras, liseira, otimismo, fantasias.... ah! sem elas, o que seriam das minhas manhã coloridas?

Há quem sonhe à noite, eu prefiro imaginar paisagens em dias claros, ventilados e absolutamente promissores, com o sol no alto, sabedor de sua fundamental participação na vida. O sonho é a realidade latente, como semente louca por um solo fértil (mente feminina) para explodir.

A noite prefiro caminhar, pés descalços na languidão do corpo cansado, cheiinho de vitalidade, apesar do morno movimento. No entardecer, agarro-me às horas do chá britânico. Aposso-me da ideia de que a escuridão noturna não se dissolve com a luz do homem.

Perdas e ganhos

Costumava ouvir dos mais sábios que quem não sabe perder, não sabe ganhar. Cismando o pensar agora, vejo a contabilidade da vida. Foram muitas conquistas e incluo as perdas - ganhos temporários. Na folha contábil, eis a lição ouvida nos primórdios da adolescência.

A primeira vez que ouvi a tal frase, foi numa disputa de doces. Lá em casa, eu sempre perdia para minha irmã, a preferida da mamãe. Não me queixo agora, mesmo porque nunca ficava sem doces - ela azedava e  deixava de lado a porção que lhe cabia - e que eu comia com muito gosto. Só que depois vinha o amargo que o açúcar em abundância traz. Ou seja, eu sorvia o doce que não era para mim.

Em outras oportunidades, o lema martelava-me. No trabalho, era preciso abrir espaço para outros, levando comigo a vivência e o know- how. Na família, os filhos saem de casa e retornam sempre com bracinhos carinhosos e sorrisos de promessa. São os netos que também crescem e dilatam o viver. 

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...