Menina muito contida em casa - na realidade, castrada mesmo - soltava-me na escola. Onde mais poderia ser mais adolescente? Aprontava por meio da fala. Sempre fui de muita conversa, de preferência ser ouvida, porque achava que ninguém tinha papo melhor do que eu. Mas, também ninguém me contestava. Por que seria?
Chamava atenção dos professores porque apesar de barulhenta, conseguia me safar nas notas, era, portanto, boa aluna: assídua e estudiosa. Não saía, não conhecia quase nada da Cidade. Presa, encontrava a liberdade nos livros. Hoje, agradeço pelas rédias tão curtas, num momento em que a alma queria continuar volitando num caminho sem fim.
Uma certa vez, acho que cansado de chamar a minha atenção para assuntos sérios, um dos coordenadores da escola perguntou: sabe de cor o hino nacional? Claro que sabia! Lia tudo que aparecia na minha frente e a letra poética, que honra a Pátria estava ali, tatuada na contracapa do caderno. Ainda lembro bem o caderninho de cerca de 50 folhas, com capa verde caqui, a figura de um soldado com a bandeira nacional e o nome Avante!
Por causa do hino nacional, ganhei lugar na primeira fila - era a mais alta - e levava praticamente sozinha, o hino que me faz ficar arrepiada até hoje quanto canto. Estou sempre levantando a voz para soltar o espírito nacionalista onde trabalho, quando na realização de sessões solenes.
A partir daí, ao invés de olhares de repreensão passei a ganhar sorrisos acompanhados de acenos afirmativos de cabeça, além de pancadinhas de leve nos ombros. Tive a conquista afirmada quando o professor sentenciou a nota: Você me surpreendeu. Consegue ser tão séria quanto brincalhona.
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