Flutuação

Nada é mais impaciente do que o cursor sobre o espaço em branco a espera das letras, que surgem num teclar rápido, célere, bem além do pensamento. Sequer dá tempo para entender o que vai sendo explorado, num sentir flutuante.

Escrever - já me disseram, é um vício- e nessa dependência continuo eu em busca do íntimo que se esconde. Nada me é mais conhecido do que eu mesma e nada é mais desconhecido do que a minha pessoa. Conviver com o desconhecido faz de mim um número aleatório.

Nesse liquidificar de emoções, quem sou eu e que pretendia ser? Um monte de vozes, de silêncio, de aceitação e rejeição. Ninguem torce mais por mim do que eu mesma e ninguem consegue agredir-me tanto!

Agora entendo porque as pessoas estão substituindo "peças" originais por próteses. Disfarçar é bem mais fácil.

Veia criativa

Inspiração dá asas

A criação vem como um monte de palavras feito poeira a provocar espirro do pensar. Passo tempo letargicamente criando, sem espantar os quase invisíveis, grãos da nuvem. À luz do conhecimento, fujo para dentro feito cabeça de tartaruga. O animal sempre busca refúgio. Assim é o pensar, que quando espantado, entra em movimento para depois pousar levemente, empurrado pela gravidade.

O poeta é um devedor. Os credores não lhe cobram juros exacerbados, mas o ignoram nos momentos de moratória. Uma parcela paga a cada vez, sem o turbilhão dos juros - juro que retorno às letras- só para continuar escapando do processo da cassação.

Na real...

No tempo em que acreditava ser amor as explosões de ciume, fui feliz com o companheiro. No momento em que despertei para as consequencias doentias da posse, fui infeliz. Busquei um meio termo - entre os tapas e os beijos - para não melindrar a resistente controvérsia masculina.

Esse retorno ao tempo veio há pouco, ouvindo um colega relatar uma cena que marcou. Nada é mais eficaz para combater sonhos rosados do que a realidade!

Na rede


Não gosto de regras, mas quem vive sem elas? Portanto, nas festas de fim de ano, eu não faço balanço das atitudes tomadas nos 365 dias passados; não procuro no supermercado produtos “laites”; pouco me importa o que dizem os rótulos. 

Nada me tira o prazer de ficar o dia inteiro na cozinha no processo químico de transformar sabores. 

E também pouco me importa se alguém reclama do “sacrifício” que faço em trabalhar nas vésperas das ceias. O que vale a pena é  sentir o prazer do outro se deliciando. As gargalhadas, o melhor presente dos amigos e parentes...

Portanto, o balanço do ano é na minha rede, com quem quer ter o prazer de dividir comigo o espaço.É rever fotografias com rostos brilhantes de esperança, sorrisos prontos que só a amizade tempera e torna eternos.

O rádio

Eu tenho um sonho - sem querer parodiar Martin Luther King, ao anunciar sua meta de banir o preconceito racial - de publicar os meus escritos. Parei na contramão do pecúlio. 

Corria atrás como faz quem acredita que os sonhos estão distantes, num abrigo isolado por nós mesmos, como algo impossível. Só no dia anterior a este, despertei que as tais obras minhas já são publicadas diariamente. A edição é minha, assim com a cópia das ideias humanas. 
 
O rádio é a minha janela, que folheia, publica e distribui para leitores/ouvintes o que os meus dedos sem timidez desenrolam a teia sem mistérios da criação.

É o rádio a minha prateleira e todos os dias são de autógrafos, citados com a disciplina de quem me traduz.

Eu amo rádio!

 

Caras

Não, não lamento as perdas. Relembro que nada se perde. Tudo se ganha.

Vivi paixões intensas - daquelas que doem o corpo, agitam a pele, estremecem os dias e provocam noites insones.

Vivenciei calmarias, daquelas que relaxam a vontade de estar junto a alguem que te provoca milagres.

Já tive o cara e também fui cara, até onde os melindres da insensatez afasta o bem querer.

Os ganhos são a chance de estar plena seja em qual for a situação: na dor, na alegria, no trabalho de ser gente.

Mensagem

Sinto falta do bilhete. Papel pequeno, poucos escritos, com uma indomável força de aproximação. Um pedido de desculpa, um encontro marcado, a inspiração de sair correndo aos abraços, o telefone esperado. O toque que salta a emoção.

Papel esquecido no bolso, uma falsa promessa e uma angústia certa. O poder da letra manchada pelo tempo esquecida. Na história antiga, bem antes da velocidade da informação, quanta ansiedade encerrava.

O bilhete acalmou e inquietou. Lembro do primeiro que recebi. Nem sei bem quem foi o autor até hoje. Apenas informava que me observava e que gostava da minha maneira de ser. Surpreendida não entendia como despertar interesse em alguem quando a minha aparência era bem distante das meninas da moda. Mas era a minha voz que surtia efeitos, a postura de falar com tanta força.

Sim, impressionei um desconhecido que me sacudiu e, que mesmo acovardado, me tornou apaixonada.

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...