Sorriso falado

Música é o som da vida que mais perpetua a minha espécie poética. Surge como sussurros, preces ao infinito azul que se estende a inspiração. O toque leve, o dedilhar da letra que escorrega entre um pensar e outro.

Mergulho sem surpresas no vocabulário devastado da mente...

Vou emergindo em busca do ar doce e místico das notas lentas e me perco sem pressa nenhuma, presa na atmosfera do olhar na paisagem do teu sorriso de promessa.

Que nem a chuva

Quando a chuva desce obedecendo comando da gravidade, a terra é que nem mulher saudosa. Aceita a visita e se prenhe de sementes adormecidas num abraço infinito de produção.

A alegria é tamanha e se conjuga a gratidão profunda com um olhar aos céus escuros numa clara promessa de vida contínua.

Eu sou árida de espaços para tingir céus de emoção. Por ser passional quero chuva de discernimento para expandir os grãos numa fraternidade ainda desconhecida, mas que nem por isso, tão desejada e tão latente.

Estou numa fase de namoro próprio.

Reencontrando-me nas vivências avulsas e dormentes da minha existência.

No conjunto de emoções habito um vulcão. Quando adormecido, a paz reina ao meu redor.

As amizades perenes e efêmeras povoam-me.

Quando transbordo, extravasando a verdadeira essência pontual, queimo, chaga aberta ao céu: machuco e sou machucada.

Uma vez morna, terra devastada, superfície dura, a cinza apaga o colorido dos dias. Volto a adormecer, e tudo outra vez, floresce na terra fértil da imaginação.

Saudade

Hoje estou saudosa de uma saudade que não doi.

Só me faz lembrar com muita exatidão o que vivo, vivi.

Bato palmas para os aniversários dos momentos que mais mereceram a minha atenção: as dores.

Aperto as mãos e aceito os abraços do conforto vindos de tantas direções... até mesmo das que ignorava.

Debruço o dorso para cumprimentar quem sempre está comigo e dou saltos longos, altos para lembrar o rastejar da pena para libertar-me das tempestades.

Nada é mais calmo do que um dia sem temporal de ideias e imagens negativas.

Descoisificar

Resultado de imagem para coisasEu passei a gostar mais de mim quando parei de coisificar pessoas.

Há hoje um grito de alerta para o retorno pessoal. Assim, é melhor quando lançar olhos para uma criança não ofertar tanta matéria. Os presentes serão acréscimos, sem a pretensão de identificar a minha presença. Hoje, com três netos, é importante não representar com mimos o meu amor pelos pequenos.

Foi desde cedo que aprendi - sem o aparato da psicologia - que as pessoas são também marcantes por serem gente. Não ganhei brinquedos e no mergulho interno não vejo lacunas pela ausência de bonecas, bicicletas. Mantive amigos invisíveis que me acompanham até hoje e me ajudam a fortalecer amizade otimista com os visíveis.

O presente

Acho que estou ficando madura. Amadurecer não é contar rugas do rosto, os pés de galinha que se acumulam formando molduras, que aos 15 anos não eram ameaças. Olho-me todos os dias e compreendo perfeitamente o que vem ocorrendo comigo. E como na adolescência, sou apresentada à uma nova pessoa. Todos os dias sou renovada.

Há pouco lia um testemunho de uma mulher falando sobre os cem anos de sua avó. Perguntava o que podia comprar de presentes para aquela senhora. A resposta de uma parenta foi que um pijama confortável seria o melhor mimo.  Adoro o dia do meu aniversário pelas palavras bacanas que inspiro as pessoas a dizerem pra mim. Sei que é de coração porque tudo vem de lá. Agradeço sempre e correspondo aos abraços, a troca de digitais que costumo dizer. Os presentes também são bem vindos: batons, cremes, roupas e os acessórios das orelhas, cintura, braços e dedos.

Não abro mão do jeans e do batom. Pulo alguns anos no tempo e busco a boca risonha marcada pelo tempo... vou querer colori-la? A cultura põe cinza no outono da vida rica nossa. No entanto, pra mim, cinza só na cor do lápis que circunda a minha herança indígena.

Profundidade

Eu não sei nadar.

Deve ser por isso que vou sempre ao fundo de tudo. Nas relações, no trabalho...

De vez em quando penso como seria se ficasse vez por outra na superfície... boiando na inércia, no tal "deixa a vida me levar..."

Percebo que sempre quis o controle e, com isso, me descontrolo.

Mas, ter fé não é olhar pro ceu e ficar esperando o maná. É preparar a vasilha para o doce que está pra vir.

É cair na vida, ralar nas escadarias. No patamar onde cheguei subi de joelhos.

Mesmo assim, gosto de me largar no espaço porque sei que sempre haverá um chão para apoiar.

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...