O valor da flor

A continuidade da vida - além da existência física na Terra - permanece em nós ainda encarnados, saudosos dos que partiram como uma promessa de reencontro. Enquanto isso não nos é permitido vamos nos agarrando ao palpável. Nessa rotina de vida reta, exploramos os sentidos numa busca incansável de contextualizar em nossos momentos aquele que nos ensinou a sorrir, a chorar, a nos perplexar diante de um leque infindo de experiências.

A imagem ao lado, as flores  cheias de vida são um presente. Foi o meu pai que levou para crescer no meu quintal uma muda, que ele tinha sempre o cuidado de observar seu crescimento, fazendo recomendações e alertando para a importância da rega. Essa planta vai crescer um bocado e dá umas flores muito cheirosas, você vai gostar, dizia ele.

Naqueles momentos não nos davam conta- pelo menos eu - do quanto essa planta, com seus galhos magros e altos e suas flores maravilhosas me fariam companhia. Hoje, longe da presença física dele, esse mimo do meu jardim está ali prometendo manter o carinho que me dispensava.

Obrigada papai. Você me ensinou que a vida é o melhor presente.

Pelo valor da escrita

Nesta necessidade minha de escrever diariamente ou todo o tempo da minha vida, andei vasculhando sobre essa necessidade vital de outros escritores. Vi neles suas finalidades e pretensamente quis igualar-me. Sim, é necessário portar e postar letras unidas em palavras para parafrasear e contar sobre os acontecimentos diários. Nisso eu me sustento literalmente. O jornalismo me força a isso.

Nas letras eu me perco ou me encontro. Nessa estrada nem sempre asfaltada pela razão, vou pulando os obstáculos e surpreendendo-me na proeza de vencê-los. É prazeroso. Aí já não escrevo para pagar as contas somente,
mas para manter a mente desocupada. Sim, porque é de uma leveza esse trabalho que dispenso o cansaço físico.

Não estou aqui para ser entendida, mas quero ser lida. É uma vontade enorme de lançar ao mundo palavras que chegam e que vão tão rápido, o que me obriga, muitas vezes a ter sempre um caderninho de anotações e uma caneta que não falha. E quando isso ocorre lá se foi a inspiração.

Nesse diário íntimo, que não tem nada de obscuro e que pode ser lido por qualquer um que se habilite, vou me expondo sem medo, sem sequer pensar, que posso um dia ser admirada. É o exercício meu diário, de deleitar-me no teclado, meu berço de estimação.


Ser madura

Amadurecer, ah que pausa boa nas perspectivas conflitantes da vida.

Como é bom flagrar em si o afrouxamento das rédeas das situações que nos circundam, das quais ainda agentes ativos , mas sem querer ser a única mão que aperta o laço.



Que ter sempre razão é cansativo, que ser feliz é a meta sob quaisquer circunstâncias, sem negligenciar com o dever que abraça.


Que a frase “deixa pra lá” é mais bem vinda do que “deixa que vou resolver isso”.


Que deitar na rede a noite depois de um dia longo de trabalho é traduzido como um dos maiores prazeres.


É mostrar os braços sem tentar explicar a pele que se distende.


É reunir amigos para um longo bate papo e dar altas risadas sem preocupar em demonstrar isso.


É banir o juiz que julga, julga, julga...



Amadurecer não é o entardecer da existência. É, na verdade a contemplação do que pode ser.



 


Negros cabelos

Quando os meus cabelos eram negros - na maior parte porque aí já contavam alguns fios brancos que surgiram aos 14 anos - claras eram a esperança, a vontade de crescer, o ritmo frenético das novidades que apareciam na redação da rádio O Povo.

Eram claras as minhas intenções no trabalho, como mãe e como mulher em busca de um grande amor.

Eram altos os degraus dos sonhos meus acalantados por noites adormecidas e sacudidas pela voz do filho mais novo pedindo colo.

Eram fartos os cabelos que cobriam o cérebro com ideias que pululavam o dia inteiro.

Eram fortes - assim como ainda hoje são - o temperamento e a firmeza nas decisões.

Hoje, os fios multicoloridos - porque depende da vontade e da química - mantenho firme a vontade de continuar crescendo.

Sigo aprendendo

Aprendi que somos responsáveis pelo o que fazemos a nós mesmos, o que permitimos que os outros façam e sobre o impacto que causamos nas pessoas(na maioria das vezes bem desconhecido pra mim). Não sei se deixo as pessoas ou se elas me deixam. Ou se existe um acordo secreto para que isso venha a ocorrer. Se é tão secreto, como prevê-lo?

Há situações na minha vida que se repetem, sem cessar, e eu não caio em mim para descobrir as razões. Na superfície do pensamento não faço a menor ideia. Fico deixando-me levar, como se boiasse nas águas buliçosas da vida. E nessa maré vou ao encontro de rochas - chega a doer em muitos momentos - e noutras estaciono esquecida em alguma praia deserta.

Noutros momentos, eu faço do cabresto o meu guia, a vara cega da vista turva dos meus pesadelos. Curto, sim, eu curto! a solidão de momentos, reúno as mil faces contidas no ego, que ressurgem com muito barulho. Ouça-as sem interromper. É neste momento, que se revelam ou eu me revelo, não sei. Mais uma vez, cansada de tanto diálogos infindos, ofereço o rosto ao sol, os cabelos ao vento e, numa tentativa sem muito esforço, volto à realidade personalizada, da qual nem sei se controlo.

Nas divagações sempre deixo mais interrogações do que respostas. Talvez sejam os questionamentos que me mantém sóbria, lúcida.

Eu não sei qual paraíso ou inferno que te abriga.

Desbotar-se

As cores da vida necessariamente não precisam desbotar. Aliás, o desbotar é uma oportunidade para pincelar sonhos. O colorido é a força de querer realizá-los. Pensando assim, vejo casas da minha cidade com suas paredes marcadas pelo calor do sol e pelas poucas chuvas. Dá uma vontade enorme de cravar a unha na cratera formada pela tintura endurecida. Arrancar como se fosse o desejo do pintor ao derramar braçadas a custo de muito suor.

Paredes não são apenas paredes, são asilos, onde furtivamente expressamos o nosso desejo de evitar contatos, de se expor.A tinta é o véu mais opaco que serve como proteção. Assim, fugir do olhar é o desleixo do fluido colorido.

No meu desbotar adquiro novas cores, sem pinceis, sem trinchas...

Feliz sem saber?

Um dia desses fui surpreendida com o convite de falar sobre a felicidade para pessoas que não tinha convivência, mas que iriam me dar ouvidos mesmo assim, na busca - talvez - de entender sobre os seus momentos aflitivos e/ou suaves. Fiquei impactada. Isso, porque à época com o auxílio do Evangelho, divagava sobre a orientação de que "felicidade não é coisa deste mundo". E eu estou neste mundo de meu Deus até quando o ser superior determinar.


Pra complicar a minha falta de noção sobre o tema, fatos domésticos torturaram-me exatos nesse dia. Situação pra lá de vexatória, que me colocaram, como mãe na defesa da cria. À proporção que o dia passava, às voltas com a literatura de auxílio, a felicidade que sentia estava limitada. Finalmente, chegou a hora e fui!

Diante de um salão lotado - e com certeza não estavam lá por mim - esforcei-me para ser leal à plateia. Falar para quem não conheço tem sido uma das minhas principais funções, já que faço rádio. Com um sorriso acolhedor, mirei os presentes ao mesmo tempo em que rogava por auxílio. Senhor ajuda-me a ser útil. Cruzei com os olhos o espaço fazendo Z e X para os rostos atentos e- que beleza - receptivos!

Saí-me com uma desculpa salvadora: Estou aqui porque me pediram para falar sobre felicidade. Felicidade... o que eu sei desse sentimento? Dessa sensação? Seria a pessoa certa para tratar desse tema? Pronto! a partir daí, fui tão sincera que os 50 minutos da "palestra" voaram.

Mereci os aplausos finais? Não sei, talvez pela minha coragem de não ter desistido mesmo com o sentimento de que ali não deveria ter ido. O que importa agora que fico feliz por ter tido esse contato, que se repetiram em outras vezes, falando não como uma palestrante sábia, mas como uma pessoa simples, em busca também de respostas para tantas perguntas que não me deixam ouvir as  respostas. Por isso, o silêncio em si se faz tão necessário.

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...