Na Fortaleza

Um dos quadros do programa apresentado por Narcélio Limaverde na rádio FM Assembleia é Fortaleza Antiga, crônica rica da cidade comportamental, com seus costumes e falas. E como fala o cearense. Lembro de quando menina - e, sinceramente, quem dera que assim ainda fosse - que a grande preocupação dos pais era ter filho mal falado, as meninas então...

 Gosto de lembrar das brincadeiras na rua. Sim, a rua era pra brincar, com poucos veiculos e nenhum perigo além de um acidente, como queda, por exemplo. Mas, menino naquele tempo caia e não se quebrava. Levava carão e, dependendo do susto na mãe, umas palmadas com direito a castigo como ficar sem os companheiros brincantes por alguns dias.

Como ajudava em casa e estudava, sobravam as noites para correr, pega-pega, cantigas de roda - gente! as cirandas eram lindas!

Não é saudosismo, não sinto saudade da infância, tenho mais o que fazer... mas, retenho na memória o que me fez crescer acreditando na bondade das pessoas.

No pé

Estava cismando o pensar a respeito de um sonho repetido. Algo com porta, portão. Sempre quando estou incomodada volto à cena: uma casa, um quarto em que sou personagem perseguida por alguem que não consigo identificar. É uma ameaça e quando tento fugir a porta não abre, não tem saida. Costumava acordar já sentada na cama com o coração aos saltos. 

Noite passada, o sonho contextualizado com a chuva. Uma parede amarela, um parafuso solto que antes segurava um portão. Não precisava fugir, mas resguardar-me. A água infiltrou na parede que cedia e dispensava a força no parafuso.

Penso na porta estreita e na limitada visão minha que, não me deixa ver o que mais necessito. Vivi uma época em que tinha curiosidade acentuada sobre os significados dos sonhos. Diziam tratar-se de ocupações de adolescente. Mas, normalmente, alguem fala quando começo a despertar. Agora, lembro perfeitamente da noite pasada :Você, Fátima, vive com um pé no passado e outro no presente.


No Ceará

No dia do jornalista não  vou reivindicar. Estou desde cedo só querendo ver o valor do trabalho nosso de cada dia. Experienciando o corre-corre. Se eu fosse contar a quilometragem das pernas e dos dedos sobre o teclado...

Se eu fosse contabilizar os números de oncinhas trocadas e liquidadas no custo da vida...

Se eu fosse medir os litros de chás de cadeira...

Ao invés disso, acredite: nem me tocava que hoje se celebra a profissão do jornalista. Por que será que o Dia Mundial da Saude falou mais alto? Será porque não tenho plano de saude, mas que planejo ter um que não duvide da minha vontade de pagar em dia...

 Estou desde o momento em que sai da cama lembrando os versos e a música de Carlos Barroso, que Fagner grita com prazer: "Eu só queria / Que você fosse um dia/ Ver as praias bonitas do meu Ceará
Tenho certeza/ Que você gostaria/ Dos mares bravios/ Das praias de lá.

 Estou assim hoje insultando Dorival Caymmi que me convida ir a Bahia. Este é o meu troco para o baiano convicto.

Sem rebolado

Uma queda esquisita me fez bailarina sem música clássica. Mas a dor sentida até o âmago do ser, ficou longe da intensidade do parto. No resguardo, trabalhei quinze dias na cama. Interessante quando parte do corpo não corresponde à sua vontade. Como andar com uma perna só? Quicando, naturalmente, carregando os meus quilos ganhos a custa de muita comida boa.

 Pois é... estava tão serelepe naquela noite de sexta-feira. Eu só queria um pouco de água para regar o corpo enquanto um sono me levaria a sonhos da vida. As pernas começaram a se afastar num escorregadio chão. Nem deu pra saber o que provocou. Quase um mês depois, ando sem nenhum rebolado. Gelo, massagens e salto baixinho. Receitas para recuperação.

Na infância

Eu fui uma garota feiinha. Cabelos longos até demais, muito pretos, olhos apertados, branca,  amarelada - até hoje não sei bem qual o nome da minha desbotada pele, que graças ao sol, muda o tom - tinha medo de tudo, inclusive da sombra.

Cismo o pensar para buscar no arquivo da memória algo que me deslumbre dessa passagem da vida. Uma imagem reflete o tempo: o velório do meu avô. Tinha quatro anos e o cheiro das flores de jasmim sinto até  hoje. Ele foi o meu amigo mais efêmero na presença física.

A minha avó paterna, tinha longos cabelos pretos, pareciam com os meus. Dela recordo um carinho para aliviar uma dor abdominal e um sorriso que o tempo vai apagando.

Eu nem queria ser tão melancolica, mas sempre considerei que a infância é um dos momentos mais ricos e mais temidos devido à sua fragilidade, a sua beleza indefesa. Fui educada como pessoa pequena e o não sempre foi tão marcante...

E chegou a desejada adolescência, com suas cólicas mensais e uma irritabilidade que provocava a tolerância materna. O corpo prometendo e os olhares mais frequentes. Os compromissos na escola... Ah, a veia poética correu com vontade nos quilômetros mil das artérias. Foi quando vislumbrei um futuro de escritora famosa, sem nunca debruçar de verdade para o êxito da fantasia. Este sonho, ainda não larguei.

Despeitada

A despeito de qualquer definição que eu possa fazer sobre mim mesma, admito o despeito. Tentando seguir o conselho de conhecer a si mesmo, o meu self é revelador. Sempre foi. Eu que não dava ouvidos e cerrava os olhos diante do filme da vida em exibição sem dar crédito à direção.

O despeito é o resumo do que o espelho da mente reclama luz para refletir em mim a sobrecarga das emoções negativas. Eu sempre subestimei as minhas qualidades para dar vazão aos talentos orientados por superestimadas negligências.

O diabo que o outro que não me conhece, consegue despertar com suas críticas, exatamente o que pretendo expelir sem recuos: é por isso, que de vez em quando o pensar lateja você sabe com quem está falando.


Reprovada

Nos zeros do boletim da vida, o que me faz sempre repetir é a cadeira de amor. Cabulei tanto as aulas, mesmo assim continuo matriculada na escola, que não desiste da ignorante aluna. Lembro dos primeiros dias de disciplina  quando queria ser a queridinha da turma humana. Pequei por palavras e obras.

Agora repetente, com trabalhos extras de recuperação ensaio artigos para conquistar quem no passado cobrava atenção, sentindo que o amor seria um prêmio merecido  e que o outro, o próximo, já estaria com notas azuis apenas atendendo ao meu apelo.

Moral da história: se quero amor, amo antes. Agora tenho que começar do zero todos os dias. Aceito os desenhos de corações coloridos. Para quem não universalizou o  sentimento ainda, rabiscar papel é o exercício da mente que quer ser preenchida com gratidão.


IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...