Quadro

No mundo das artes quero ser o pincel com a liberdade de correr pela tela espalhando cores vivas!

Quero fotografar o amanhã do observador, que não vai perceber a ideia lançada na essência do recriador.

Quero vencer o tempo que amarela a lembrança. Sim, porque o quadro permanece apesar das traças do esquecimento.

Quero manchar a roupa do artista com marcas perpétuas que o solvente apenas faz brilhar.

Quero chá

Uma xícara de chá sempre lembra calmaria, com o olhar sem muita pretensão para a fumaça que se esvai, prometendo um gole quentinho. Nem  sempre vou atrás do sabor, só o calor importa neste momento. Aos poucos, o corpo aquece a partir da glote.

Quando garota viajava no tempo dando ouvidos ao som dos goles aflitos. Isso porque quando criança a gente tem sempre pressa para que o alimento faça a sua função.

Depois, uma mesa (não importa o tamanho), um livro aberto, canetas sem tampas numa aflita vontade de  espalhar a tinta sobre o papel em forma de pensamento. A fumaça é o transporte para uma viagem sem retorno.

O pensar que extrapola o papel encontra destino num olhar descuidado. Nem tudo que se deita em folhas levanta ideias.

A xícara foi esquecida e o vento arrasta as folhas escritas sem piedade, que alçam voo desatinado e o olhar fica preso à distância de que nada vale a corrida do que se foi.

Fotografia

A fotografia guardada numa caixa esquecida, continua retendo o flagrante da vida real, que impacta ao vê-la agora.

Estranho o sabor do tempo remoto. É um paladar amarelo de uma fruta passada, amadurecida sem sementes.

É como se resumisse a tempestade de sentimentos, que me acompanha sem proteção do guarda chuva do bom senso. As imagens -feito estátua -nem lembram a obra do artista.

Devolver ao fundo da gaveta é despedida para um até breve. Reter no colorido do dia atual o branco e preto de um instântaneo reto, num simbólico gesto de resignação. O tempo não pára e nem eu.

Biscoito


O ensinamento, diário muitas vezes oculto, fica próximo ao peito. O coração não diz porque o cérebro ocupado não escuta. E até mesmo o sentido do tato é relegado.

Desejo que os meus amores sejam como o biscoito, que caiu no bolso da minha camisa enquanto tentava matar a fome. Escorregou da mão e sumiu de vista. Olhei para baixo e apenas dei com o azul do carpete.

Horas depois, ao ter o corpo trêmulo de dor solidária pela morte do pai de uma amiga, toquei sem querer o lado esquerdo e senti algo mais firme. Estranhei, abri o orifício do bolso e lá estava o biscoito, que mesmo ignorado permanecia próximo a mim. Se você me ama, seja o meu biscoito, amigo do peito.

Favorito

Quando eu amo coloco o meu amor no topo da lista dos favoritos. Nem penso em deletar, bloquear e, muito menos, ficar off line. Evito novos contatos - em todos os sentidos.

Filtro as noias e o spam das dúvida. Cesso o cursor para evitar caraminholas no meu rico arquivo de experiências.

Esqueço todas as senhas que me levam ao desgosto. Documento novos conteudos, novas mídias.  Costumo rever tags antigas, que recebem novos aplicativos.

O virtual é tão real quanto as cartas de amantes, que demoravam meses atravessando oceanos, amarelando com a saudade.


Sem sentido

Eu gosto de ladrilhos, com seus brilhos, o tamanho, tão pequenos e tão lúcidos! São palavras que se encontram num verso para destoar da poesia.

Ladrilhar é pular sobre pedras coloridas da mente que explode muros  de artes. Fazer sentido tem sido a meta humana, quando um simples olhar pra chinelos largados embaixo de uma rede, me faz lançar suspiros muito mais do que qualquer objetivo.

A gente quer gente, mas...

Os salões de beleza são os redutos para confraternização. Já tive inúmeras conversas com milhares de cabeças tingidas. Não morro de amores pelos estabelecimentos que só busco pra cortar o cabelo. Em defesa do meu dinheirinho, pinto os brancos e faço pés e mãos em casa.

Acontece, que no último sábado, tive uma oportunidade bem diferente no salão próximo à minha casa. Por ser muito cedo, erámos apenas dois clientes: eu querendo ficar mais bonitinha e um professor aposentado. Depois do tradicional bom dia, confesso que fiquei muito a vontade, com aquele monte de "piranhas" prendendo os meu cabelos, cara sem maquiagem e ele me olhando, puxando conversa.

Aproveitando a deixa de estar tão desarrumada, ataquei na maior sinceridade, já que falávamos sobre antigos relacionamentos: O que você não mais faria por uma mulher? E ele, depois de uma certa demora: responder às cobranças, do tipo onde estava, a que horas e com quem? Ora, respondi. A pessoa quando estar alguem quer estar perto!

Na base da simbologia eu não espremeria mais laranjas, sem ligar o espremedor, para não acordar o dorminhoco. Acredita que eu fazia isso? E ele, sorrindo entendeu, curtindo a expressão "reincidência" para nós que nos apaixonamos e dividimos teto com outra pessoa mais de uma vez, que hoje incomoda se não baixar a tampa do sanitário depois do uso; que transtorna se não dá notícia - naquela base de nada de cobranças - e que aporrinha o meu mais novo amigo professor, se a moça pernoitada, não lavar as louças do café.

Agora, vejo com muita clareza, que depois de um certo tempo sozinha, a gente começa a se sentir autosuficiente. Eu, desde cedo aprendi a trocar lâmpadas, o botijão de gás, pintar paredes, e o principal, garantir sustento sem pensão. Não me sinto orgulhosa pra ser franca. Eu ainda prefiro um par de pés coçando os meus numa boa rede.

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...