Olhos para olhar

Eu queria que tudo fosse enredo de filme, digo ficção, coisa de louco, que imagina misérias para o mundo, essa tal realidade de ontem, hoje e se Deus quiser não de sempre. Não tinha nem tomado café para acordar as ideias, despertar a boca, e já estava  diante de notícias dando conta da loucura nossa de todos os dias de destruição.

Queria que fosse um daqueles  longas do tipo "guerra nas estrelas"  deglutidos com guaraná e pipoca. Ou reprises na telinha e que eu poderia por fim desligando a TV ou mudando de canal. Mas, não! É real demais por isso provoca tanta dor.

Fico cismando porque existe em nós esta ânsia de calar o outro, impondo o que acreditamos ser verdade. Por que teimam tanta a ignorância, a idiossincrasia distorcida, a ilusão do poder?! Não seremos imóveis antigos prontos para serem demolidos atendendo à ganância. Não seremos madeiras corroídas por cupins da moralidade falsa que prolifera.

A cegueira que nos persegue não se desnuda? Os olhos que Saulo sentiu inúteis no caminho de Damasco precisam ser recuperados pela córnea da boa vontade! Que Assim Seja!

Sem pressa

O meu tempo de se avexar já passou. Foi o que ele disse olhando-me com atenção, sem que eu me desse conta da corrida do meu tempo.

A sua calma acompanhava o ritmo quase sereno do movimento das ondas do mar naquela manhã de sol que prometia dia mais claro. Não tão esplendor da vida prometida surgida na infância. Cá comigo desviava atenção da minha rotina de trabalho, deitando o olhar naquelas mãos calejadas curtidas pelo sol e Deus sabe lá de quantos anos empurrando o carrinho de tapioca.

Não, ele não estava duvidando de mim, quando lhe falei que deixara a bolsa no carro com o dinheiro que lhe devia do lanche tão oportuno. Fiquei cismando o quanto deveria saber aquele homem tão simples. Quantas gargalhadas ele já teria dado nos encontros com os amigos? Quantas promessas ele alimentou durante suas caminhadas. Estaria ele tão impregnado pelo prazer da natureza diante daquele mar enorme que lhe oferecia tantas possibilidades?

Saí com uma pauta e voltei com outra história. Uma experiência de vida tocada em mim por uma simples frase. Ele nem se preocupou com o meu pensar. Depois que recebeu os trocados pelo seu produto, despediu-se com um olhar vago mas com muita conversa interior. Deixou-me tão empolgada com a arte de viver. No entanto, fiquei ali caminhando com a mente acompanhando o seu distanciamento com os passos de quem não mais se avexa.


Pela poesia

Há uma enorme necessidade de se conjugar a poesia.

Há um extenso vazio que sua falta provoca na música, nas livrarias do cotidiano da grande maioria das pessoas.

É preciso poetizar a rotina.

Iluminar olhos não tão brilhantes hoje, colorir telas de vidas opacas.

É vital contribuir para o mundo que nos oferece e ao qual lançamos o véu da incompreensão.

É absolutamente oportuno iniciar corridas em busca dos pensadores fartos de ideias,

Abraçar a janela do viver para a poesia

Fazer amizade com o poeta.

Sugerir milagres para o universo.

Na cozinha

Atualmente sigo a receita para ser feliz:

Descarto temperos antigos, fora do prazo de validade, do tipo é preciso ter sempre um objetivo para continuar caminhando;

potes pequenos que cabem poucas sobras. Sim porque nem tudo que não é consumido é lixo;

no congelador o verde, as hortaliças risonhas do meu viver, para que assim se conservem;

Preparo banquetes em grandes panelas para alimentar de esperança os que me rodeiam. Sim, não preciso viver só para me conquistar;

Mesa ampla para reunir alegrias, desabafos, muxoxos e até falta de apetite. São as minhas fases, verdadeiros graus que me elevaram até aqui.

Manter em banho maria os alimentos a servir, verdadeiras companhias do caminhar. Sim, na falta de visão noturna, costumo dormir na direção e pego atalhos.


Companhia

Com quem andas? Esta frase com o português no popular - com quem tu anda? - era o interrogatório materno fazendo alerta para as más companhias, aquelas que nos induzem ao mau caminho. Santa ignorância minha, o que seriam as más companhias? Aquelas garotas que usavam saias curtas, que usavam cabelos também curtos? que saiam em companhia dos namorados, colegas de escola, que pintavam as unhas? Resmungos e mais resmungos acompanharam-me por muito tempo, que geravam uma insatisfação tão grande própria de quem não alcançava o sinal amarelo da vigilância.

Após o fim do primeiro casamento, lá vem o questionar com dedo em riste para a atenção à mulher descasada, que não pode namorar porque tem filhas, as meninas precisavam de muita presença.

No trabalho, as companhias nem sempre más com as rasteiras incertas.

Nas noitadas as quais costumava chegar e sair sozinha...

Afora todas essas provocações sociais, dava-me conta das más companhias quando sozinha. Ensimesmada e por que não dizer assustada com o pensar nevoento, que arrancavam dores da alma. Não eram presenças físicas, que podem atordoar com tantas informações, mas imagens fortuitas, vozes sem endereços, e o que é pior, sem clareza.

Com quem ando, pergunto eu agora, com insistência. A vigília agora é minha!

O valor da flor

A continuidade da vida - além da existência física na Terra - permanece em nós ainda encarnados, saudosos dos que partiram como uma promessa de reencontro. Enquanto isso não nos é permitido vamos nos agarrando ao palpável. Nessa rotina de vida reta, exploramos os sentidos numa busca incansável de contextualizar em nossos momentos aquele que nos ensinou a sorrir, a chorar, a nos perplexar diante de um leque infindo de experiências.

A imagem ao lado, as flores  cheias de vida são um presente. Foi o meu pai que levou para crescer no meu quintal uma muda, que ele tinha sempre o cuidado de observar seu crescimento, fazendo recomendações e alertando para a importância da rega. Essa planta vai crescer um bocado e dá umas flores muito cheirosas, você vai gostar, dizia ele.

Naqueles momentos não nos davam conta- pelo menos eu - do quanto essa planta, com seus galhos magros e altos e suas flores maravilhosas me fariam companhia. Hoje, longe da presença física dele, esse mimo do meu jardim está ali prometendo manter o carinho que me dispensava.

Obrigada papai. Você me ensinou que a vida é o melhor presente.

Pelo valor da escrita

Nesta necessidade minha de escrever diariamente ou todo o tempo da minha vida, andei vasculhando sobre essa necessidade vital de outros escritores. Vi neles suas finalidades e pretensamente quis igualar-me. Sim, é necessário portar e postar letras unidas em palavras para parafrasear e contar sobre os acontecimentos diários. Nisso eu me sustento literalmente. O jornalismo me força a isso.

Nas letras eu me perco ou me encontro. Nessa estrada nem sempre asfaltada pela razão, vou pulando os obstáculos e surpreendendo-me na proeza de vencê-los. É prazeroso. Aí já não escrevo para pagar as contas somente,
mas para manter a mente desocupada. Sim, porque é de uma leveza esse trabalho que dispenso o cansaço físico.

Não estou aqui para ser entendida, mas quero ser lida. É uma vontade enorme de lançar ao mundo palavras que chegam e que vão tão rápido, o que me obriga, muitas vezes a ter sempre um caderninho de anotações e uma caneta que não falha. E quando isso ocorre lá se foi a inspiração.

Nesse diário íntimo, que não tem nada de obscuro e que pode ser lido por qualquer um que se habilite, vou me expondo sem medo, sem sequer pensar, que posso um dia ser admirada. É o exercício meu diário, de deleitar-me no teclado, meu berço de estimação.


IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...