Morando no (in)certo

Acho engraçado quando vejo a curiosidade de jovens a respeito da passagem do tempo na pessoa. Cada pergunta que me tira um pouco do siso exigente de questionamentos mais, vamos dizer, ricos. 

A pergunta que me insultou a escrever neste espaço - que deixo de molho vez em quando - é "como você fez para ficar velha desse jeito, tão linda!" A indagação não me foi dirigida, mas era como se fosse.

Então, estou aqui a responder: trabalhei feito uma doida, dei plantões exorbitantes diante de uma máquina de escrever e diante de uma mesa cheia de docinhos para enrolar; fui invadida no íntimo inúmeras vezes; desrespeitada, molestada e assediada. 

Além disso, passei fome. Fome de alimentos, de atenção, de gentilezas, compreensão.

Chorei muito, tive insônias infindas, ralei... 

Amei pacas! tive amantes fantásticos e também aqueles que a gente conhece para depois esquecer.

Pari filhos maravilhosos e acompanho o crescimento dos netos.

Se continuo bela é porque sempre me curti. Até quando achava que me odiava. Portanto, a minha resposta não vale pra ninguém. Essa experiência é minha. Nem queira experimentar. Quem me acompanhou e acompanha nos momentos de descanso verbal, sabe. 

No mais, vamos às pitangas!

Morando fora do relógio

Hoje vou falar da minha relação com o relógio. Esse aparelhinho inventado no início da era cristã por um chinês e que foi revolucionando o mundo e nos colocando na jaula do tempo. 

Sim, os ponteiros nos regem e os dígitos também. 

Ah, mas não estou aqui para contar a história desse domador e ditador, não! O que quero expressar é a minha quase total liberdade das horas. 

Ah... pois não é que  consigo ficar sossegada diante do passar do dia? E a noite que eu devorava com ânsia para dormir e, ao mesmo tempo, correndo para aproveitar os sinos e suas badalações...

O correr do tempo e da hora.... quanta imaginação e fantasias cabem nesse nicho. 



Quando eu encarolava as ideias, julgando um despertar nítido com direito a sol, escapava que nem passarinho ansioso pelo primeiro bater das asas. 

Eu não me faço de rogada pelo tempo e percebo que soube bem aproveitar as horas ditadas, as de espera, as de espanto, as de ânsia e, por fim, da calmaria. 

É um exercício perceber-se ponteiro e, buscando lá no fundo do ouvir, um badalar me chamando para a vida!

Morando na inquietude

 

"Tudo é uma questão de manter a mente quieta, espinha ereta e o coração tranquilo". É o que aconselha trechos da música de Walter Franco. E é o que tento fazer comigo. Afinal, quem melhor cuida de mim se não o Criador e eu seguindo-o. Estou quase deixando algumas mídias sociais, pelo menos, de lê-las. Há tanta controvérsia...

E, naqueles momentos em que me acho sábia, tento não me assustar com o que falam. A minha mãe sempre repetia aquele jargão "Quem tem boca fala o que quer e quem tem ouvidos ouve o que não quer." Nada mais sábio!

É preciso provar do doce para saber o que é amargo. De uma verdade eu sei: o amargo é também sabor e precisa ser (a)
provado. 

Morando na crença






Eu creio. 

Dias melhores virão. 

Porque não importa o quanto a realidade me impacte, eu preciso perceber os milagres que ocorrem ao meu redor. 

Mesmo que não sejam em mim somente, mas naqueles com os quais convivo e me importo.

Eu sempre acreditei que poderia ser alguém melhor, mesmo quando já achava que tudo relacionado ao meu Eu já superava muitas outras pessoas. 

Quanta petulância e ingenuidade. 

Não sei se fui muito feliz navegando nesses mares da supremacia. 

Já disse aqui que não me censuro. 

Aos 67 anos - beirando os meia oito - aprendi a respeitar desde a menina que fui, com minha ingenuidade e rejeições, à mulher de hoje. 

Morando no aplauso

É possível acostumar-se com os aplausos? E com as vaias?

Lembro que ouvi num discurso calmo e lúcido de um palestrante, que 99 aplausos de uma plateia formada por cem pessoas, não calam a única vaia presente.

Por que será que a unanimidade é a meta mais perseguida? Digo no tocante aos aplausos. Ainda no palco da vida acredito que recebi muitos aplausos que me alimentaram a vaidade e a pretensão de que sou algo grande!

Mas foram as vaias que me cutucaram o pensar como reprimendas, vestindo-me outra vez, de juiz das minhas ações. 

Será que conforto me amolece? Acredito que sim!

Os aplausos duram pouco, o eco, no entanto...

E agora, lembro de outro pensamento: "Os amigos se dizem sinceros; os inimigos o são." Frase curta que ecoa de Arthur Schopenhauer em Arte de Insultar.



Morando na incerteza

À s vezes saio em busca de algo não perdido. Só que não visto.

São coisas embaçadas ou ofuscadas. Nem sei em que direção se guarda isso.

Apenas busco uma certa nostalgia por algo disperso.

Esse pensar flutua em meio a tempestades, se é que é possível.

Mas os raios de esperanças sempre voltam.

E sem ameaças me enlaçam para dormir na ponta de um penhasco que são as minhas dúvidas. 

Morar

Morar onde me cabe sempre foi o meu desejo. Já coube num útero, num berço, numa rede, num sofá, no chão, ao pé da porta, no desalento, na areia e no espaço!

Como cheguei até lá é uma pergunta que me persegue. Quem me faz seguir trilhas imagináveis e reais?

Moro no ar, papo cabeça, embriagada, sorvendo todo o tipo de poção mágica que me tira da senzala e me põe na casa grande.

Que me tira da praia e me tranca num apartamento com vista para o mar. Estou enganando quem?

O vento da esperança não se aprisiona.





IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...