Flagrantes




Diz o evangelho que não "podemos chamar de nosso, o que outro pode tirar sem a nossa permissão". Ou seja, tudo o quanto é material. O que se conquista fica conosco, são ganhos de uma vivência contínua.




Fiquei cismando o pensar depois de ouvir de um colega de trabalho, um emocionado depoimento de um dos desabrigados do nosso Ceará. Móveis, TV e geladeira, a gente compra. Mas, as fotos dos meus filhos foram com as águas. Está tudo perdido.




Lembro que cheguei a rasgar fotos em momentos de frustração. Fragmentava momentos únicos. Hoje, guardo até aquelas que me constrangem. São pedaços da minha longa trajetória: risos, caras e bocas; abraços; beijos e, sobretudo, um tempo inigualável.




O dia seguinte...


...de todas mães é uma rotina normal. Ou seja, um misto de muito trabalho e prazer. No início, o medo da dor do parto; os cuidados com a saúde do bebê. Desde cedo, a mãe é um grande condomínio. Ali, dentro de si, um ser cresce, mexe e acorda cedo, numa estirada de perna que afasta as costelas. Muitos deles, preferem a costela direita.


Depois as noites em vigília. Ser mãe é esquecer que dorme! São horas intensas de baladas de choro, mamilos inchados... Olhos de mãe, quem olha pra eles? Vivem marejados: de preocupação, de emoção...


Eu fiz o curso intensivo de amar três vezes. E não abro mão disso. Pequenos são os nossos bebês; grandinhos, pessoas que precisam conhecer com rapidez para poder acompanhá-los; adultos, companheiros.

Chuva na Cidade



Fortaleza está molhada, praças mais verdes, resistindo ao vandalismo. A chuva não causa transtorno. Inunda a vida. As águas em abundância rasgam as ruas, invadem os lixões, assustam os homens, inclusive os que sujam.


Costumo fazer limpezas na bolsa quase que diariamente. Dali retiro papéis de anotações os quais levo para reciclagem no trabalho; e de alguns bombons e balas, que me nego insistentemente de jogar fora.


Não sou a cidadã que a cidade merece, sorridente vizinha de calçadas pelo medo de me expor, contudo, tenho consciência de que o lixo amontoado não saiu da minha casa.


A Fortaleza que me viu nascer cresceu mais rápido do que eu. É um mundo de ruas, ruelas e becos. Falo da periferia visitada ontem à tarde. O que poderia ser um passeio agradável, foi um desafio desviar dos buracos, do lixo, e das pessoas que não tem calçadas para trafegar.


Eu gosto da periferia porque a gente vê os rostos das crianças, das mães avisando sobre o perigo dos carros, bem diferente dos bairros onde residem os que têm salários melhores, que apenas nos oferecem muros altos e cercas elétricas.

Ora, bolas!


Ora bolas, deixem-me envelhecer em paz! O desabafo alimentado por uma tremenda dor de cabeça -causada por uma virose somada a uma sinusite- foi dado enquanto lia e-mail insistindo para que mantivesse o corpo em forma. O texto sugeria ginástica diária, não sei quantos exercícios. Mais adiante, emagrecer, endurecer, fortalecer e outros "er".


Quer dizer que beirando os 60 anos ainda tenho que continuar sendo a mulher maravilha, imitação das artistas, que ainda acham que precisam ser lindas aos 70 com cara de 20? Ora, bolas!


Eu quero curtir os meus 54 anos, com a soma de todas as minhas vivências. Com o prazer de ouvir os meus netinhos chamando-me vovó, sem me sentir como uma velha acabada. Eu sou tão ocupada para estar gastando a energia que ainda tenho com bobagens.


Aos 20 anos, fiz o que se faz aos 20; aos 30 anos, curti o amadurecimento e fiz companhias a muitas lutas por ideais, agora mais direcionados. E assim fui aos 40 anos. Agora, com licença, eu vou ser cinquentona com muito gosto.

Choro para adolescentes


Ouvi de um colega a declaração exacerbada de que a juventude de hoje sofre do mau gosto. E ele justificava sobre a questão musical e sobre a forma como dança. Realmente, o mau gosto é enorme. Mas, de onde vem o alimento disso tudo? Da mídia, obvio!


E faço mea culpa: a mídia que está aí também é feita por mim, mas não vou declinar a fala diante de tanta responsabilidade. Por isso, estamos resgatando na FM Assembleia a nossa MPB, apresentando o trabalho dos inúmeros músicos e compositores, além dos intérpretes formidáveis que temos.


A música é o convite para se fazer ouvir sempre. Hoje, no dia choro, vamos chorar por melhores opções.

Ação Divina e ação do homem


Terra molhada, ruas alagadas.

Nunca se viu tanto verde. As plantas não necessitam do homem. Elas crescem, florescem, frutificam até ele chegar.


No dia da Terra, no descobrimento do Brasil, muitas mãos lavadas e mentes nem tanto.

Inquietude



Estou voltando depois de uma ausência absolutamente justificável. Feriados não combinam com a minha rotina. Atrapalham o ritmo da vida: ocupo-me e sou ocupada por tantos afãs. Interessante, mas é preciso admitir que estou voltada para o trabalho.


Não consigo ficar quieta. Até quando me deito prazerosamente na minha rede branca com rosas pintadas, bem coloridas, tenho que ler ou gasto bateria do controle remoto. Ou seja, preciso estar ocupada para fazer sentido este viver nem sempre pacífico.


As vezes o pensar assalta-me com relação a uma possivel limitação cerebral - ou o tal do suíço que ameaça as mulheres com mais de 50 anos - como sobreviveria assim? Apesar de querer manter distância, o tal estrangeiro bem conhecido da intimidade alienada de muitas mulheres, é um sombra no final do túnel.

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...