Iso(lados)


Eu já tive lados, que foram mais de quatro. No enquadramento fui triangular: eu, você e os outros, que falaram mais, que ditaram mais.

Os meus lados - arredondados pela lâmina do passado -  querem a circunferência da vida que retorna.

Eu já tive partes, que foram segmentos inventados, traduzidos por equívocos. O todo que se perde num monte das coisinhas, que me oferecem.

Eu já tive arranjos, que não foram flores, apenas vasos.

Pelos se(s) da vida....


Se me vir chorando. Deixe o desaguar sem pressa de ficar. 

Se me vir rindo imagina o que pode me tornar feliz e participa desse colorido momento. 

Se me vir gargalhar, faz eco, revira-se pelo avesso da dor.

Se me vir calada, não me insulta a palavra pensada e se me vir tagarelando, empresta o ouvir e olha-me nos olhos.

Se me vir aflita, serena o teu pensar. 

Se sentir calor no meu olhar, refugia-te. É o abraço que há tanto estendo em tua direção.

A propósito de Florbela Espanca...

Eu sempre quis amar e este amor me foi apresentado de variadas formas, matizes.

Cinzas para não prenunciar a idade primaveril e vermelho sangue da paixão que arrebata!

Amarelo, prenúncio de  risco de afogamento na ânsia.

Dores doridas sem oxigênio, implodindo cenas desagradáveis, sem paternidade, mas com muitos autores.

Assinaturas sem crédito.

A sinceridade convém?

A pergunta é simples: você costuma mentir? Dois verbos para um só sujeito não pode ter resposta imediata, justo que a complexidade faz parte do meu cérebro, compõe e confunde o pensar. Se retirar pelo menos, um dos verbos, a exemplo de você mente, poderia alargar a saia justa, devolvendo o questionamento: em que momento?

Já li por ai que a mentira é a verdade que se esconde e outras baboseiras. Na verdade, mentir é um grito de socorro expresso na vontade de dizer o que se sente. Confesso: eu minto, mas não sou mentirosa. Pode tudo ser uma grande conveniência que, por similitude da ação, um acordo social. Não mentir é ser mais sincero?

Sinceramente...

Infinitude

A delicadeza exige de mim uma compreensão além do desprendimento animal. Sempre me flagro um pouco atenta, um pouco descuidada da forma de me ver mulher. A princípio, tudo colorido ou dolorido, porque sair do preto e branco é um aborto dramático para adolescente.

Na maturidade... ah ser madura, como é misteriosa essa passagem! Nem sempre há bilhetes suficientes para a viagem em primeira classe. Sobrevivência, palavra de ordem, que sufoca os arrepios da arrogante interpretação do que é ser ampla.

Ser delicada é uma exigência que me afeta diariamente por medo de perder a cor, as petálas das vivências e o espinho do talo da experiência.  Não é uma questão de rima. As flores murcham,  os espinhos, não.

A suavidade de um pensamento alegre me atrai, da mesma forma como sou arrebatada para um mergulho profundo em busca do rescaldo da dor. Não sou suave, nem violenta. Sou explosão, numa galáxia a ser descoberta ainda.


Quadro

No mundo das artes quero ser o pincel com a liberdade de correr pela tela espalhando cores vivas!

Quero fotografar o amanhã do observador, que não vai perceber a ideia lançada na essência do recriador.

Quero vencer o tempo que amarela a lembrança. Sim, porque o quadro permanece apesar das traças do esquecimento.

Quero manchar a roupa do artista com marcas perpétuas que o solvente apenas faz brilhar.

Quero chá

Uma xícara de chá sempre lembra calmaria, com o olhar sem muita pretensão para a fumaça que se esvai, prometendo um gole quentinho. Nem  sempre vou atrás do sabor, só o calor importa neste momento. Aos poucos, o corpo aquece a partir da glote.

Quando garota viajava no tempo dando ouvidos ao som dos goles aflitos. Isso porque quando criança a gente tem sempre pressa para que o alimento faça a sua função.

Depois, uma mesa (não importa o tamanho), um livro aberto, canetas sem tampas numa aflita vontade de  espalhar a tinta sobre o papel em forma de pensamento. A fumaça é o transporte para uma viagem sem retorno.

O pensar que extrapola o papel encontra destino num olhar descuidado. Nem tudo que se deita em folhas levanta ideias.

A xícara foi esquecida e o vento arrasta as folhas escritas sem piedade, que alçam voo desatinado e o olhar fica preso à distância de que nada vale a corrida do que se foi.

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...