Pela poesia

Há uma enorme necessidade de se conjugar a poesia.

Há um extenso vazio que sua falta provoca na música, nas livrarias do cotidiano da grande maioria das pessoas.

É preciso poetizar a rotina.

Iluminar olhos não tão brilhantes hoje, colorir telas de vidas opacas.

É vital contribuir para o mundo que nos oferece e ao qual lançamos o véu da incompreensão.

É absolutamente oportuno iniciar corridas em busca dos pensadores fartos de ideias,

Abraçar a janela do viver para a poesia

Fazer amizade com o poeta.

Sugerir milagres para o universo.

Na cozinha

Atualmente sigo a receita para ser feliz:

Descarto temperos antigos, fora do prazo de validade, do tipo é preciso ter sempre um objetivo para continuar caminhando;

potes pequenos que cabem poucas sobras. Sim porque nem tudo que não é consumido é lixo;

no congelador o verde, as hortaliças risonhas do meu viver, para que assim se conservem;

Preparo banquetes em grandes panelas para alimentar de esperança os que me rodeiam. Sim, não preciso viver só para me conquistar;

Mesa ampla para reunir alegrias, desabafos, muxoxos e até falta de apetite. São as minhas fases, verdadeiros graus que me elevaram até aqui.

Manter em banho maria os alimentos a servir, verdadeiras companhias do caminhar. Sim, na falta de visão noturna, costumo dormir na direção e pego atalhos.


Companhia

Com quem andas? Esta frase com o português no popular - com quem tu anda? - era o interrogatório materno fazendo alerta para as más companhias, aquelas que nos induzem ao mau caminho. Santa ignorância minha, o que seriam as más companhias? Aquelas garotas que usavam saias curtas, que usavam cabelos também curtos? que saiam em companhia dos namorados, colegas de escola, que pintavam as unhas? Resmungos e mais resmungos acompanharam-me por muito tempo, que geravam uma insatisfação tão grande própria de quem não alcançava o sinal amarelo da vigilância.

Após o fim do primeiro casamento, lá vem o questionar com dedo em riste para a atenção à mulher descasada, que não pode namorar porque tem filhas, as meninas precisavam de muita presença.

No trabalho, as companhias nem sempre más com as rasteiras incertas.

Nas noitadas as quais costumava chegar e sair sozinha...

Afora todas essas provocações sociais, dava-me conta das más companhias quando sozinha. Ensimesmada e por que não dizer assustada com o pensar nevoento, que arrancavam dores da alma. Não eram presenças físicas, que podem atordoar com tantas informações, mas imagens fortuitas, vozes sem endereços, e o que é pior, sem clareza.

Com quem ando, pergunto eu agora, com insistência. A vigília agora é minha!

O valor da flor

A continuidade da vida - além da existência física na Terra - permanece em nós ainda encarnados, saudosos dos que partiram como uma promessa de reencontro. Enquanto isso não nos é permitido vamos nos agarrando ao palpável. Nessa rotina de vida reta, exploramos os sentidos numa busca incansável de contextualizar em nossos momentos aquele que nos ensinou a sorrir, a chorar, a nos perplexar diante de um leque infindo de experiências.

A imagem ao lado, as flores  cheias de vida são um presente. Foi o meu pai que levou para crescer no meu quintal uma muda, que ele tinha sempre o cuidado de observar seu crescimento, fazendo recomendações e alertando para a importância da rega. Essa planta vai crescer um bocado e dá umas flores muito cheirosas, você vai gostar, dizia ele.

Naqueles momentos não nos davam conta- pelo menos eu - do quanto essa planta, com seus galhos magros e altos e suas flores maravilhosas me fariam companhia. Hoje, longe da presença física dele, esse mimo do meu jardim está ali prometendo manter o carinho que me dispensava.

Obrigada papai. Você me ensinou que a vida é o melhor presente.

Pelo valor da escrita

Nesta necessidade minha de escrever diariamente ou todo o tempo da minha vida, andei vasculhando sobre essa necessidade vital de outros escritores. Vi neles suas finalidades e pretensamente quis igualar-me. Sim, é necessário portar e postar letras unidas em palavras para parafrasear e contar sobre os acontecimentos diários. Nisso eu me sustento literalmente. O jornalismo me força a isso.

Nas letras eu me perco ou me encontro. Nessa estrada nem sempre asfaltada pela razão, vou pulando os obstáculos e surpreendendo-me na proeza de vencê-los. É prazeroso. Aí já não escrevo para pagar as contas somente,
mas para manter a mente desocupada. Sim, porque é de uma leveza esse trabalho que dispenso o cansaço físico.

Não estou aqui para ser entendida, mas quero ser lida. É uma vontade enorme de lançar ao mundo palavras que chegam e que vão tão rápido, o que me obriga, muitas vezes a ter sempre um caderninho de anotações e uma caneta que não falha. E quando isso ocorre lá se foi a inspiração.

Nesse diário íntimo, que não tem nada de obscuro e que pode ser lido por qualquer um que se habilite, vou me expondo sem medo, sem sequer pensar, que posso um dia ser admirada. É o exercício meu diário, de deleitar-me no teclado, meu berço de estimação.


Ser madura

Amadurecer, ah que pausa boa nas perspectivas conflitantes da vida.

Como é bom flagrar em si o afrouxamento das rédeas das situações que nos circundam, das quais ainda agentes ativos , mas sem querer ser a única mão que aperta o laço.



Que ter sempre razão é cansativo, que ser feliz é a meta sob quaisquer circunstâncias, sem negligenciar com o dever que abraça.


Que a frase “deixa pra lá” é mais bem vinda do que “deixa que vou resolver isso”.


Que deitar na rede a noite depois de um dia longo de trabalho é traduzido como um dos maiores prazeres.


É mostrar os braços sem tentar explicar a pele que se distende.


É reunir amigos para um longo bate papo e dar altas risadas sem preocupar em demonstrar isso.


É banir o juiz que julga, julga, julga...



Amadurecer não é o entardecer da existência. É, na verdade a contemplação do que pode ser.



 


Negros cabelos

Quando os meus cabelos eram negros - na maior parte porque aí já contavam alguns fios brancos que surgiram aos 14 anos - claras eram a esperança, a vontade de crescer, o ritmo frenético das novidades que apareciam na redação da rádio O Povo.

Eram claras as minhas intenções no trabalho, como mãe e como mulher em busca de um grande amor.

Eram altos os degraus dos sonhos meus acalantados por noites adormecidas e sacudidas pela voz do filho mais novo pedindo colo.

Eram fartos os cabelos que cobriam o cérebro com ideias que pululavam o dia inteiro.

Eram fortes - assim como ainda hoje são - o temperamento e a firmeza nas decisões.

Hoje, os fios multicoloridos - porque depende da vontade e da química - mantenho firme a vontade de continuar crescendo.

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...