Queria ser artista

Lembro quando menina, faxinando a enorme casa que servia de pensionato. Quando o calo reclamava, parava o movimento e imagina-me num palco. O cabo de vassoura era o meu microfone e ali soltava a voz, numa parceria que só a mente imagina. Sempre era aplaudida. Cantava tudo o que ouvia no rádio. Naquela época criança podia ouvir rádio sem preocupação dos pais.

Adolescente imaginava-me outra vez no palco, agora interpretando personagens sofridas e brincalhonas. Na escola, fui comediante da turma. Fazia paródias simultâneas e assim garantia o lanche. Lá em casa a economia torcia contra.

Na universidade, o humor tornou-se escrachado ao mesmo tempo que a poesia. Voltava à infância e compunha. Passei do doce ao azedume. Movimentos estudantis. Não que eu fosse militante, imagina, morria de medo de tudo e de todos e a década de 70 não me estimulava. Sempre fui covarde diante da pressão. Preferia recolher-me.

Se fiz história fugindo da arena, não sei, mas pra mim o heroi não tem que morrer sempre. A palavra é a ordem para a harmonia. E nisso, venho trabalhando há algum tempo.

Por amizade

Tem certos momentos que olho ao redor e não vejo sorrisos de amigos. É ai que penso o quanto é necessário o reencontro.

Passo os dias interagindo com o computador, telefone ao lado, toda a tecnologia favorável para uma aproximação. Culpo a rotina com mil afazeres para não dar bom dia e perguntar para aquela amiga tão distante no circulo sobre a cor do dia.

É claro que há aquelas que o chamego é maior. O Google talk que o diga. Mas, mesmo assim é um tal de morrer o assunto e de um matar oportunidades. Peço aqui desculpas aos amigos, verdadeiros anjos, que sustentam as quebradas da esperança, o pisar falso do empenho...

Nesses anos todos que estou por aqui, nada mais é compensador - depois de assimilado - a crítica ferrenha de um amigo. Diferente na intencionalidade do adversário, um amigo enfurecido é o corretivo que Deus nos envia. Louvados sejam!

Anel e dedos

Gosto de aneis. E percebo que por muito tempo valorizei a joia ou a bijuteria mais do que os amigos em número de dez, que garantem apresentar o meu pensar. Os dedos, companheiros de 55 anos, que já bateram a máquina, já discaram e hoje teclam e digitam.

Reconheço que utilizei mal essa ferramenta. Muitas vezes apontei, coloquei em riste o indicador até mesmo contra mim. Foi um motim? Depois com azedume e por que não dizer amargor, corto as unhas querendo podar as más tendências.

Pelo menos as minhas falanges conspiram neste blog puxando o pensar de quem lê. Ou seja, aprendi depois das quase seis décadas que os aneis só existem porque os dedos cá estão. Ou melhor ainda: é preciso ter dedo para apontar, mas nem sempre é necessário que se aponte com tanto alarde.

Chuva

Gostaria que os estragos que atribuimos a chuva fossem  de ordem gramatical. Eu poria um X na questão e poderia cantar Xove Xuva... sem parar....

Ficar por aqui

Fui constrangida a dizer adeus a uma amiga de muitas vivências. Nem conto o tempo que a gente se afastou. Ela no outro plano, num retorno que espero tranquilo, e eu por aqui acordando cedo, ainda de madrugada com resquícios da viagem noturna. A frase lateja na mente: Eu não quero morrer. Não aceito isso. Num apelo consolador fujo da fatalidade terceirizando a ideia fixa.

Que fique em algum lugar na mente. Tenho mais o que fazer. O relógio não para e eu preciso preparar um café quente para sentir o gosto da Terra. Agora até lembro a letra apocaliptica de Eduardo Dusek. Pois sim, não vou ficar com a boca escancarada na janela, tal qual Raul...

Essa passagem pode até baixar de preço, socializar o retorno, mas poeta canta dor dos mortais por aqui mesmo. Depois de pronto o café, hora de ir para janela e com olhos fitos no ceu, agradecer por mais um dia na escola, na condição de repetente, e pedir para ser mais dócil.

Amar, se aprende

Sei não... já tive fortíssima impressão de que os homens só sabem amar quando estão distantes. Homem não ama no sentido mulher (aconchego), gosta mesmo é de sentir saudades e contar "vantagens" da dor da ausência.

Hoje, com hormônios a menos e passada na "casca do alho" dai o grande sabor das inúmeras vivências, acredito em Mário Quintana, quando afirma que devemos amar de graça. Amo sem aluguel, sem pagar impostos, sem cobranças exorbitantes, apenas querendo mudar a cor da nota no boletim cotidiano.

Nessa escola, já fui caloura querendo tudo experimentar, com uma fileira de voluntários. Fiz segunda chamada, escalei horas a fio textos longos que nada diziam para mim. O mal de quem escreve é buscar o ponto final numa frase sem sentido. 

Renovo a matrícula do aprendizado todos os dias e na tarefa de casa distribuo sorrisos até para as plantinhas do meu quintal. Saudo a flor que se abre e não lamento a que murcha, posto que vira semente.

Este post foi roubado de uma resposta ao amigo Raymundo Neto depois de ler suas belas crônicas.

Pensando, pensando ...

Um novo tempo! Estava cismando o pensar a respeito da novidade temporal. O que é ser novo, estar mudando, se somos sempre agarrados a tantas cismas?

Eu sempre fui questionadora porque as respostas sempre estiveram em falta. Ou será que não as percebo? E se a percepção não é bem vinda?

Sempre escolhemos e nunca aceitamos administrar as consequências. É o tal de sempre pedir e sempre obter e nunca aceitar. Ser humana as vezes é tão desumano...

Só algo que nem pisco é na decisão de que devo construir algo bom, mesmo que nem perceba o ato. E aprender a questionar sem julgar.

Pássaros

Sempre gostei de ouvir pássaros.                                                           Créditos: depositphotos.com / steve_byland Cantos...