Roubo da coroa

Fui roubada e para escapar do criminoso me aliei a outros ladrões. Um deles, o tempo, que corre e nem a polícia mais ágil é capaz de pegá-lo. As joias das conquistas não foram reconhecidas e fico me perguntando por que diabo corri tanto?

Nada mais ilusório do que trofeu. Faz-se a festa, você agradece com sorrisos e a prenda fica comendo poeira porque é passado.

Na cozinha, fiz sucesso e quase ganho diploma pela gastronomia e hoje continuo engolindo sapos, num verdadeiro desacato à natureza dos anfíbios. Pelo menos, beirando hoje os 60 não ostento o rídiculo título de rainha do lar, porque como tantas outras mulheres estou grávida de ansiedade diante de um mundo que numa hora me aplaude, noutra me abate.

Nem posso dizer que continua vivo o machismo hoje tão decadente quanto salário mínimo, mas a ilógica força destrutiva permanece.

Saudade

Saudade é aquele desejo sem retorno do que a gente quer reviver com o pensar de hoje.

Dai vem a tal da monotonia. Isso, porque na ânsia de viver cada dia mais rápido, saltamos o gosto das ocorrências.

Mas, como nem todo saldo é positivo e nem todo balanço indiscutível, ainda é tempo para deixar curtida a experiência do agora. E deixar que a saudade apenas nomeie o que não tem retorno.

Tingimento

Dizem que nós mulheres temos noias. Os cabelos são os mais afetados, sem dúvida. E lembro que sou do tempo em que ter prateados na cabeça significavam experiência e estimulava por isso mesmo, respeito. Ai veio a tintura. Homens e mulheres colorindo cabelos para disfarçar a idade.

Hoje, o tempo de vida não influi pela preferência aos salões de beleza lotados. São inúmeras as garotas que usam química para mudarem o que ainda não ficou definido.

Estou hoje meio marrom: nem morena, nem ruiva e, muito menos, loira. Tinjo os fios em casa com ajuda sempre oportuna de uma amiga e não nego a idade. Eu gosto muito de dizer que estou quase sexagenária, mas com os cabelos pintados que não abro mão. É que a raiz branca briga com o restante do conjunto.

Lembro uma grande amiga minha que resolveu deixar o alvo tomar conta da cabeleira. Com a demora do crescimento, outras pessoas lhe indagavam sobre o resultado. Reclamaram tanto que a linda resolveu tingir de novo. Pronto, ficou em paz. Certos comentários são tão nocivos quanto moscas no doce.

Queria ser artista

Lembro quando menina, faxinando a enorme casa que servia de pensionato. Quando o calo reclamava, parava o movimento e imagina-me num palco. O cabo de vassoura era o meu microfone e ali soltava a voz, numa parceria que só a mente imagina. Sempre era aplaudida. Cantava tudo o que ouvia no rádio. Naquela época criança podia ouvir rádio sem preocupação dos pais.

Adolescente imaginava-me outra vez no palco, agora interpretando personagens sofridas e brincalhonas. Na escola, fui comediante da turma. Fazia paródias simultâneas e assim garantia o lanche. Lá em casa a economia torcia contra.

Na universidade, o humor tornou-se escrachado ao mesmo tempo que a poesia. Voltava à infância e compunha. Passei do doce ao azedume. Movimentos estudantis. Não que eu fosse militante, imagina, morria de medo de tudo e de todos e a década de 70 não me estimulava. Sempre fui covarde diante da pressão. Preferia recolher-me.

Se fiz história fugindo da arena, não sei, mas pra mim o heroi não tem que morrer sempre. A palavra é a ordem para a harmonia. E nisso, venho trabalhando há algum tempo.

Por amizade

Tem certos momentos que olho ao redor e não vejo sorrisos de amigos. É ai que penso o quanto é necessário o reencontro.

Passo os dias interagindo com o computador, telefone ao lado, toda a tecnologia favorável para uma aproximação. Culpo a rotina com mil afazeres para não dar bom dia e perguntar para aquela amiga tão distante no circulo sobre a cor do dia.

É claro que há aquelas que o chamego é maior. O Google talk que o diga. Mas, mesmo assim é um tal de morrer o assunto e de um matar oportunidades. Peço aqui desculpas aos amigos, verdadeiros anjos, que sustentam as quebradas da esperança, o pisar falso do empenho...

Nesses anos todos que estou por aqui, nada mais é compensador - depois de assimilado - a crítica ferrenha de um amigo. Diferente na intencionalidade do adversário, um amigo enfurecido é o corretivo que Deus nos envia. Louvados sejam!

Anel e dedos

Gosto de aneis. E percebo que por muito tempo valorizei a joia ou a bijuteria mais do que os amigos em número de dez, que garantem apresentar o meu pensar. Os dedos, companheiros de 55 anos, que já bateram a máquina, já discaram e hoje teclam e digitam.

Reconheço que utilizei mal essa ferramenta. Muitas vezes apontei, coloquei em riste o indicador até mesmo contra mim. Foi um motim? Depois com azedume e por que não dizer amargor, corto as unhas querendo podar as más tendências.

Pelo menos as minhas falanges conspiram neste blog puxando o pensar de quem lê. Ou seja, aprendi depois das quase seis décadas que os aneis só existem porque os dedos cá estão. Ou melhor ainda: é preciso ter dedo para apontar, mas nem sempre é necessário que se aponte com tanto alarde.

Chuva

Gostaria que os estragos que atribuimos a chuva fossem  de ordem gramatical. Eu poria um X na questão e poderia cantar Xove Xuva... sem parar....

IA conversa comigo

  Eu sou um computador. Não tenho sentimentos, mas posso conversar com você.  E conversou só naquele momento, porque não dei continuidade.  ...