O partir

Sempre quando alguem conhecido se vai, fico pensando sobre este ir, tão ilógico, tão arrasador.

Se eu pudesse, saberia a resposta para morrer doi?

Nada é mais temível do que o morrer profundo. E quantas vezes cheguei a desejar? Nem sei quantas... mas recuo diante desse nada que surpreende a minha vã indagação.

Nem adianta correr atrás das letras mediunicas, que trazem mensagens de acalanto. O partir sempre será assim. Essa presença de antes ocupada literalmente pela saudade, pelo querer pegar, tocar, sentir o calor. Quero você por perto nem que seja para encher o seu saco, eu diria. Egoisticamente dolorosa é a despedida.

Peço licença a palavra, para jogar sobre o precipício, que faz eco a vida que poderia ser feliz. Toda partida segmenta a alma, que se subtrai na alegria e se expande na reflexão.

Sinceramente, quero ver dentro de mim a expectativa verde da permanência vital, o auge da tolerância finita ao que ainda não estou pronta para compreender.

Um culto ao passado

Eu gosto de viajar no tempo, dá uma ré para a marcha não quebrar com os desencantos. Sim, o que seria desse amor desconhecido nosso e tão sentido se não fosse o drama.

Estou no século XIX e me encontro com os embriagados pelo álcool e os ébrios românticos, que insultam a líbido, olhando para os pálidos pés das damas enchapeladas.

Rostos pálidos, cheios de dor e suspiros apertados em espartilhos; musas inspiradoras dos amassos dos muros. Sim! àquela época os amassos eram torturas e as menininhas de hoje nos "ficas" da vida não conhecem o sabor do beijo roubado, a ânsia do encontro às escondidas.

Ah, o romantismo que via na mulher apenas o espírito criativo e sonhador. A atlética Iracema de José de Alencar,  bem que poderia ser o ícone das meninas malhadas que superlotam academias. Casimiro de Abreu nos ensinaria que a infância é uma brincadeira de gente grande,que se perde hoje.

Ah, a adolescência (in) feliz minha. Quantos suspiros joguei fora, o corpo trêmulo no escuro da noite, num quarto proibido. Eu queria morrer assim, na tuberculose romântica dos poetas.

Mas, também amava os quintais como ainda hoje. O som dos pássaros, o passeio das folhas na paisagem verde dos meus sonhos.

Não pelo sobrenome, mas Casimiro de Abreu é um dos meus preferidos e me dá a sensação das tranças enormes descansarem outra vez nas costas:
 Se eu tenho de morrer na flor dos anos
         Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
         Cantar o sabiá!

Caçadora

As pessoas que gostam de mim tem razões para isso. E as que não gostam também. Não sou uma conquista fácil e, muito menos, uma conquistadora.

Acredito na graça da amizade, sem cobranças, sem exigências impossíveis. É fácil largar, difícil é ficar sem triturar o perfil do outro.

Não sou modeladora e, muito menos, massa de modelagem. Uma estatueta, uma obra de arte para ser apreciada por um tempo, fadada a poeira.

Apenas uma caçadora do conhecimento próprio.


Não, mesmo

Eu não quero ser normal.

Isso seria seguir à risca a opinião de alguns.

O pensar flui assim como as conveniências.

Eu não sou o tijolo que falta na parede. Muito menos, o cimento para remendar a marca dos pregos dos quadros, que guardavam imagens de mim. Ou a tinta que descasca ao toque dos dedos do artista ausente.

Eu apenas quero ser a minha melhor companhia. Portanto, os conceitos devem ser guardados. Quem sabe, um dia talvez, no resguardo das horas, eu não me debruce sobre eles e num instante, eu me surpreenda com um aplauso.


Entardecer da vida

As coisas de ontem dão saudade porque eu só pensava no amanhã, que é hoje. E faço grande rebuliço nos anzois da esperança na pesca de algo surpreendente.

Nada é mais temível do que a velhice - porque lembra esquecimento. A gente esquece de sorrir, de comer, de desejar e quando isso ocorre alguem está sempre de guarda para nos lembrar, que o único balanço na rede da vida, é tangido por um pé cansado, impulsionado por uma perna, que pesa.

Sei que estarei morrendo quando deixar de querer. Só que  o poço dos pedidos continua aberto com fundo encoberto de moedas de melhoras.

Música

A música é uma viagem sem custos.

É mão que pressiona o relógio da vida.

É a centelha viva de um amor na saudade.

É um passeio pelos cachos dos anos vividos a fio...

É a nave espacial que o homem recriou para mostrar que é sensível.

É a inspiração divina que a alma se identifica.

Costumo entender que conheço as pessoas por suas escolhas musicais.

Há canções que as letras sou eu com a minha história sentenciada a um término.

Na paz das asas

A poesia é uma forma agradável de dizer o que vai na alma. Por isso, permito-me ocupar este espaço e dedilhar os sentimentos profundos, que ressurgem na superficie da letra.

Vai longe a pretensão da compreensão que, promete o meu rigor sobre as postagens do blog. Aqui sou que nem borboleta: livre, leve e solta num espaço azul. Sem esquecer a fragilidade das asas  coloridas e com a mente estreita na pequenez reduta.

Se busco o perfume da calmaria, é para alimentar a ilusão de que posso voar sem muito esforço. Uma vez presa, a realidade- mulher aguilhotina a lepidez da alma. Sim, o corpo aquece, mas detém a inspiração.

Pássaros

Sempre gostei de ouvir pássaros.                                                           Créditos: depositphotos.com / steve_byland Cantos...