Viuvez



Resultado de imagem para janela escuroFicou ali quedada a observar o quarto vazio. 

Nunca um lugar foi tão preenchido de saudade. Achava esquisito não ouvir a resposta da conversa contínua que tinham. 

O sorriso na foto que não será renovado e as mãos quentes que aliviavam o frio nos pés. A solidão chegou sem convites e não se obriga a retirada. A morte tem esse poder de trancar a vida.

A tranca



Resultado de imagem para ferrolhoTanto tempo sem ter o que fazer olhando a porta que desejou ser uma coisa: o ferrolho. Mesmo preso se contentaria em ser o que tranca e o que abre. Porque também não seria solitário. A fechadura lhe faria companhia, já que reclama tanto a ausência da chave, por sua vez tão perdida. Ferrolho de cor escura de tão massageado por mãos.

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Ela queria encontrar uma forma de manifestar o seu desejo de brilhar. Vestiu dourado dos pés a cabeça. Chamou atenção até de quem não queria e uma crítica fatal “amiga você está tão démodé”. Com os olhos fuzilou a interlocutora, que lhe devolveu olhar brilhante. Mude de roupa. Você já brilha com o que tem, sugeriu. Despiu-se e resignada confiou.

Tantas outras

Resultado de imagem para sou tantasNa infância eu fui apenas uma menina.

Na adolescência, uma explosão confusa da garotinha assustada.

Na fase adulta, me perdi. Eram tantas referências...

Hoje, na maturidade encontro a menina que saltita desafiando as teias inúmeras que a vida oferece;

Sou a mocinha deslumbrada com a primeira paixão;

Sou a mãe aflita, insone, repartida;

Sou a madura, regando o verde que o tempo não amarela.

A poda necessária

Resultado de imagemEstava aqui contando nos dedos os momentos em que deixei a tristeza comandar a direção da vida. Foram poucos porque sempre achei atalhos verdejantes. Até mesmo quando tudo parecia desabar, fiquei que nem planta vigorosa em jarro quebrado. Raízes à mostra com pouco substrato, mas resistindo apesar das vicissitudes.

Amo plantas, mas nem sempre sei lidar com elas, assim como o traçar do rumo da minha existência. Há podas para garantir o crescimento virtuoso, assim como aparamos as pontas dos cabelos. Esses cortes necessários doem, marcam e as cicatrizes são ostentadas para o enfado nosso.

Uma poda correta permite o multiplicar de flores cheirosas e coloridas e nessa perseguição sigo tesourando sonhos, formatando realidades e afugentando ilusões.

A dor ensina a gemer


Minha mãe costumava dizer que a dor ensina a gemer. O gemido seria um mantra solicitando alívio.Pode até não ser considerado analgésico, mas já experimentei o murmúrio acompanhado de lágrimas. Passei a escutar a dor – ah, sim ela tem som – convocando a energia presente pelo benefício da calma. E assim adormeci e sonhei que estava curada.


Um bálsamo tomou conta do corpo dolorido e a alma feliz saiu pululando no espaço. Não sei se a experiência própria já fez outros protagonistas. Luiz Gonzaga, o grande mestre da sanfona, aboiava – diziam – para libertar-se das dores provocadas pela osteoporose que o consumia.

Gonzaga não foi vaqueiro, mas cantou a aventura de ser, assim como a faina dos nordestinos pela sobrevivência. Hoje, a dor tem como causa o medo: pela vida, pela família. A dor é mais moral do que física, sendo assim, nem a medicina e muito menos os medicamentos irão curá-la.

No entanto, o remédio nós sabemos o nome criado pela nossa invenção. Tem quatro letras apenas, um resumo para algo tão grandioso que nos foge a compreensão: amor.

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Resultado de imagem para violencia contra a mulherFoi a última a deitar-se arrumando malas do marido e filhos e a  primeira a levantar-se para preparar café e lanches para viagem, enquanto todos ainda dormiam.  Já no carro, o marido raivoso reclama o celular que ele não pegara. Bastou uma bala e ela morre na frente dos filhos, embarcando na que seria sua última viagem aqui.

Pássaros

Sempre gostei de ouvir pássaros.                                                           Créditos: depositphotos.com / steve_byland Cantos...