Nada poético




Eu quero usar a imagem do botão ao lado para expressar as minhas sensações diante da falta de respeito ao verde, que tudo mostra e resiste à indiferença do regador.



Do que nega um olhar (só vê paredes), o nariz preferindo inalar fumaça.


Também uso a rosa ferida para negar qualquer semelhança desse texto com panfletagem angustiosa de um grito que se perdeu, que reuniu inúmeros discursos de direita, esquerda, centro, ou seja qual lado for que o olhar do homem se dirija.

A rosa é a flor mais bela, e isso não é poesia. É apenas a vergonha que sinto diante dos meus pequenos gestos que não serviram de exemplo para a grande maioria que amarga a desventura da marginalização.

Sexo versus cigarro


O que tem a ver o cigarro, o hábito de tragar e deixar escapar aos poucos ou com volúpia, parte da fumaça, com sexo? Eu me pergunto como ex-fumante, a propósito da pesquisa publicada pelo jornal Folha de São Paulo , em que 5% dos entrevistados consideram sexy o hábito.


Eu já disse aqui que não fui consultada a respeito de quase tudo na vida, que me diz respeito e que também ignoro. Mas, fico na cisma com relação a essas enquetes, porque tudo gira em torno do sexo. É como se fossesemos apenas isso. É um desperdício de energia carregar tanto em um só ponto de luz.


Eu também já considerei chique e sexy fumar, confesso. Foi assim que comecei, imitando uma amiga de minha mãe, a quem considerava o modelo a ser seguido. Ficava encantada com a sua elegância, falando e ao mesmo tempo deixando escapar a fumaça. Até o cheiro do cigarro me fascinava. Como fez falta à época alguém que me dissesse que para ser mulher bonita, elegante e inteligente, bastava apenas querer, sem usar artifícios que poderiam tornar-me vítima de alguma doença grave.


Parei a tempo de evitar qualquer dano maior ao organismo. Eu acho que posso sobreviver sem vícios outros, mas fico em alerta para mostrar a alguma garota que queira ser sexy por fora, inalando a poluição, deixando passar sem viver intensamente, o que naturalmente é.

Ai que saudade me dá


O saudosista tem razões para ser. Eu vou logo dizendo que não sou por vocação. Mas, quem não gosta de ouvir as canções que marcaram época, como diz o chavão?


Estava esperando o pão ser pesado, ali diante de mim, com o preço mais alto e sem nada fazer, porque estava dando ouvidos à voz de Roberto Carlos num verso de apelo: Onde você estiver não se esqueça de mim. Com quem você estiver não se esqueça de mim. Eu quero apenas estar no seu pensamento, por um momento pensar que você pensa em mim.


Pode ser meloso, mas que é bem melhor do que ser chamada de cachorra e ainda com aquele som infernal, num convite ao abuso, ao desrespeito, ah, é bem melhor.

Lamento pelas garotas de hoje, cheias de hormônios manipulados pela química dos alimentos, vivendo num apelo feroz, desrespeitoso do corpo. Num efeito sonrisal, porque a euforia maquiada de interesse sexual, é fugaz mas deixa marcas perenes.

Na época em que o romance, as paixões sofridas eram argumentos para os compositores, havia desencontro e choro, mas com o apelo de conter a promiscuidade, que hoje se estampa e é moda!

Ainda bem, que na maioria das festas de que se tem notícia, os DJs estão oferecendo as canções mais antigas, que para mim representa uma crise da criação da música, ou pior ainda: o escancaramento da insistência pela inversão dos valores éticos, morais, sociais, tão necessários para que possamos continuar evoluindo.

O que consola é saber que tudo passa e somos sobreviventes. Além disso, os compositores que alimentam a alma continuam.

Quando uma porta se fecha...


Depois do colégio Dorotéias fechar as suas portas, agora é a vez do Colégio Marista Cearense, no Centro da Cidade, que só vai funcionar até dezembro.


Sabe aquele sentimento de cobrança que vem sempre à tona em momentos como este? Pois é, estou agora com dedo em riste, querendo voltar no tempo e encontrar o culpado. Sei que hoje muitas escolas cresceram tanto que se tornaram faculdades. Grandes empreendimentos empresariais. Verdadeiras máquinas fazedoras de dinheiro.


Em outros tempos essas escolas tradicionalmente reconhecidas funcionavam como verdadeiras fortalezas da ordem, disciplina e moral. Hoje estão perdendo espaço para os grandes estabelecimentos com visão diferente que originou tantas outras escolas vivas do nosso Estado.


Fico numa atitude empática querendo sentir o desapego mais frustrante diante de um local antes tão cheio de promessas, e hoje, ocioso, sem alternativas. O que acontece agora?


Por que baixo número de alunos, quando são tantos ainda que não tiveram oportunidade de frequentar uma sala de aula?

Em cima da árvore

No dia dedicado à árvore será que alguém por aí, nas matas brasileiras vai dar importância aos apelos para mantê-las em pé, fincadas ao chão, alimentadas pela terra, permutando hidrogênio, nos permitindo continuar respirando?


Ainda estou com a imagem nítida da falta do verde naqueles galhos nus das resistentes árvores de Cabrobó, em Pernambuco. Aqui, no Ceará o verde chega até - em muitas áreas - a predominar. Sempre tive sintonia com as plantas. Gostava de me recolher encostada nos troncos das frutíferas do quintal da infância. Muito mais ágil do que hoje, vencia a altura com rapidez felina para alcançar os frutos mais doces. Sim, porque no início da vida, os doces são mais sentidos. O paladar de menina era mais sensível, sem os traumas dos alimentos temperados muitas vezes pelo descuido à saúde.


Não só comia as serigüelas, as mangas, os sapotis, os cajus, colhidos no pé, como também mordiscava pequenas folhas verdes, imitando as formigas. Ficava assim, nos raros momentos de paz, meditando - sem ter a menor idéia de que assim agia - balançando as pernas sem medo de cair. Sem medo de ser feliz.


Tempos gloriosos que coloriram a visão limitada, ainda tímida de um caminho a ser descoberto. Iniciante na vida de retorno à Terra, com a areia me identificava, jogando-me ao solo nas brincadeiras com bolas de gudes e pedrinhas que eram atiradas ao ar, sem as arengas das meninas mimadas, que insistiam que eu revelasse inveja contida, exibindo as ricas bonecas que nunca tive.


E quem queria aquelas coisas frias, que logo perdiam a graça? Eu, presa como bichinho esquecido pelo dono e adotado apenas para que não se perdesse por aí - era livre no pensar porque nada me dava mais prazer do que me imaginar grande, dona do meu nariz, enquanto mordia uma serigüela verde, saboreando até chegar ao caroço, tudo o que a vida me permitia.

Dar ouvidos


Sei que não estou bem quando a conversa de outras pessoas me incomodam. Pois é, sou toda ouvidos, realmente. Mas, não para ficar atenta o suficiente, mas por uma tolerância auditiva limitada. O tempo de rádio me treinou para que assim fosse.


Devido a isso, hoje sou mais cuidadosa quando falo. Também já é tempo de parar de desatar a fala sem ocupar-me da audiência. Quando sou convidada a falar sobre algum tema, como a espiritualidade, por exemplo, costumo me colocar no lugar do ouvinte. Não falseio a voz, mas tento torná-la mais agradável. E nisso, vai muito do meu humor. Deve ser por isso que sorrir não rima com dor.


No rádio, mídia para a qual estou retornando, o respeito cresce. Afinal, sem o feed-back para quem falaríamos?

Agora, de mim para você, já há algum tempo não escuto rádio porque quando no bom horário, estou dando ouvidos a outras falas, e também por pura intolerância de locuções outras.

Diário de bordo


Avião pequeno tudo de bom, a exceção da falta de banheiro. Em compensação, mais espaço para as pernas, que se espremem entre as poltronas das naves da linha comercial, nos vôos domésticos.


Não entendo porque o doméstico sempre representa algo com pouca despesa, para não dizer classe econômica.


Estou nos céus do Brasil. Ainda falta, uma hora para chegar ao destino: Salgueiro, interior de Pernambuco, de lá iremos para Cabrobó conferir o início das obras de transposição das águas do rio São Francisco.


Olha eu aqui história , personagem atuante, cobrindo pauta esperada há anos! Com uma diferença incrível de que logo mais estarei online. Ou melhor dizendo, viva ao vivo.


Tirando o olhar do céu, o marrom - árvores sem verde - predomina a paisagem quase desértica. Fiquei olhando para aquele cenário irmão, agora, da janela do ônibus. Contei algumas cabras, animal resistente à seca e vacas dando mostra de indiferença à situação calamitante.


O nordestino é acima de tudo um forte, como notabilizou o romancista Euclides da Cunha, porque ainda consegue ver poesia onde a natureza aponta uma das maiores adversidades do mundo: a falta de água.


Deus nos concede água, nós homens criamos os atalhos, quando também não matamos os nascedouros e enterramos as vazões. Neste caso, em particular, será a expansão das águas de um rio que recebe nome de um espírito missionário.

Pássaros

Sempre gostei de ouvir pássaros.                                                           Créditos: depositphotos.com / steve_byland Cantos...