Época de balanço

Há coisas que só compete a Deus saber e Ele sabe, conhece-me melhor e como pai atencioso espera que com as quedas eu aprenda a levantar. E não é que dá certo?

Há coisas que só compete a mim saber e eu estou tomando consciência do caminhar lento e progressivo nessa esfera, que gira sem que eu perceba.

Há coisas que só aos outros competem: acreditar que eu posso ser útil.

Há coisas que só as paredes importam: os quadros da vida que cristalizei.

Há coisas que só ao tempo compete: a valorização da história minha por aqui, mais uma vez, não sei quantas.

E não há qualquer coisa que não me diga respeito quando se trata do ser.

O balanço das ações não são coisas para estarem aqui.

2011 não é mais um tempo de envelhecer e saltar para 56 anos. É mais uma oportunidade. Que Deus permita-me ser dócil.

Luz

A luz vence o cansaço. Dentro do carro, pernas encolhidas, louca por um espreguiçar, alegro a vista com as micro lâmpadas piscando, desenhando, enroscadas em galhos verdes.

Amo esse periodo em que a cidade se veste dizendo aqui tem Natal. Fujo das lojas tumultuadas, promoções tentadoras, a máquina do cartão insultando-me, mas ter crédito não significa dinheiro. No aeroporto, o susto do voo cancelado, um desânimo estampado em muitas faces. Planos ao chão.

O mês de dezembro promete sobrecarga emocional. Todos saem de casa e lotam restaurantes, bares, são as confraternizações sem fim. Vista de cima, se pudesse, a multidão diverge em opiniões, mas converge com o mesmo sentimento: estar perto de alguém.

Sinal aberto, os pisca-piscas ficam atrás,  insistindo por um olhar para iluminar.

Liberdade

Sempre se encontra num texto um recado entre as linhas. Há sempre um chamado para fechar os olhos e sorver com prazer - como o primeiro gole do café da manhã - aquele sentido que só quem lê  percebe. Nem sempre o autor consegue alcançar o efeito da letra.

Nem sempre escrevemos o que lemos e nem sempre lemos o que traduz a palavra. É uma interpretação íntima, individual. Nesse caso, o leitor passa a ser o autor da frase. O texto se completa com a definição que se alonga ou é abortada.

O que importa é continuar expressando o pensar, porque não se prende a espaços, por maiores que sejam.

Pro sol

O mês de dezembro sempre vem com luzes. Gosto de deitar o olhar nas vias, querendo acender o coração com a força luminosa que nos impele a data. Na sua maior tradução, tento ser cristã, amar as pessoas e percebo que nem sempre consigo estender o olhar fraterno.

Temo a coisificação que contamina e me enche o peito de dor. É como estar em chamas e sentir a ardência fatal, sem que o menor gesto  possa extinguir a vontade de tudo largar. Daqui a pouco vamos cantar o ano que passa e os novos tempos, que darão continuidade ao pensar infindo.

Cada dia que passa é uma oportunidade que devo me agarrar, crendo na infinita compreensão do Alto. Aqui faço coro a música tão bem interpretada por Milton Nascimento ... dor não te escuto mais, você não me leva nada. Ei medo, não te escuto mais, você não me leva nada. E se quiser saber pra onde eu vou, aonde tenha sol é pra lá que eu vou...

A poesia, sem dúvida, é o maior alento do terreno homem.

Chama(ndo)

Ainda não havia postado letras do pensar nesta semana. Não foi por falta do assunto, o tempo se esvai entre as ocupações diárias e a mente acumula ventos, que se transformam em tempestade de ideias. Tenho percebido o recurso de leitores anônimos nos recados em outros blogs e questiono, sobretudo, essa participação evasiva.

Quando emito opinião, quero ser identificada, porque se assim procedo quero respostas. O anonimato, antes de ser um "esconderijo" é uma bala perdida, que não isenta o autor do disparo. Pode não ser reconhecido, mas existe.

Onde há fumaça, há fogo diz o jargão preventivo. A fumaça, em muitos casos, é a impertinente forma de avisar que a lealdade continuará acesa, enquanto a cumplicidade tende a se tornar cinza.

Letrando

As letras estão com saudade dos olhos que as espreitam, que colhem o significado, a cor do sentido.

A palavra sente falta das companheiras para melhor uso.

A  frase em constante conflito com a reunião das letras, tenta ser explícita com ajuda da pontuação.

A virgula não se entende com o ponto e vírgula, que para ela vive em cima do muro.

O paragrafo coordena o conjunto fraseado para as transformações que vem a seguir: redação, narração, artigo... lead(?) Oh, quem vai ai para a primeira posição?

Sim... por que não?

Tenho vivências suficientes para perceber que o Não é mal utilizado. Há pessoas que iniciam as frases com a negativa: não é que eu estava... não, é isso mesmo que quero ... não, pois é...

Esquecem que o Não sozinho fala por si mesmo. Não depende das reticências. Basta um ponto para tudo informar.É por isso que o "Mas" insiste em acompanhá-lo, numa categórica cumplicidade explícita porque também busca o Sim.

O Sim é uma porta aberta, escancarada enquanto que o Não é restrito. Um é verde e outro vermelho. Na linguagem humana, o primeiro significa vá em frente, enquanto o outro determina parar. As duas ações nos impõem sistemas de escolhas que devem ser rapidamente compreendidas.

Criações humanas para limitar a indisciplina. Com um olho aberto e outro fechado, sigo em frente, com um pé na passado, os dois juntos no presente e um salto no futuro. Sim... por que não?

Pássaros

Sempre gostei de ouvir pássaros.                                                           Créditos: depositphotos.com / steve_byland Cantos...