Plantando estrelas


Todos nós queremos ser notícia, de primeira página, de preferência. Mas, se parássemos para pensar no que pode nos ocorrer no dia seguinte, ou melhor, no momento seguinte, tentaríamos continuar no obscurantismo.

Porque os momentos de glória, de manchetes, nos pegam de surpresa, até mesmo quando é tudo o que mais desejamos. Somos conhecedores de inúmeros casos que personificam aquele(a) que vende uma imagem que não lhe pertence.

Todos somos telhados de vidro e não resistimos à pressão. Como se fossemos perfeitos, exigimos a perfeição do outro, que escolhemos como ídolo. Se é cantor, não pode perder a voz, sob pena de ser execrado. Se for ator, jamais poderá deixar de representar o papel desejado pelos fãs, porque vai pagar com o esquecimento. E, se for jogador....

Para nós que vemos a vida ainda em três momentos- começo, meio e fim - somos os melhores quando o atleta vai ótimo, excelente forma. Ficamos acostumados às suas jogadas e, apesar de não alimentarmos tanta ênfase, queremos mais e mais. E , quando durante um jogo ansiado, a bola não balança o gol do adversário...

Eu tenho acompanhado a vida de um jogador em particular, Ronaldo, que já foi Ronaldinho, o querido menino de todos, que, com a chegada de outro Ronaldinho, ganhou o sobrenome de Fenômeno. Foi manchete alegre, entusiástica, percorreu quase todas as páginas dos maiores veículos de comunicação impressos do mundo. Vendeu e como vendeu!

A conseqüência de tanto sucesso rendeu-lhe fortunas que não vem ao caso divulgar, mesmo porque desconheço o valor. E também deu muitos lucros. E foi copiado. A ordem é raspar a cabeça, lançou um estilo diferente, que antes representava o castigo para quem fosse flagrado em situação irregular.

E, o gol que não veio, frustou todos aqueles que dele nada mais esperavam. E como um animal ferido, que perdeu a oportunidade de mostrar a sua força, foi posto de escanteio. E todos que apenas querem gritar gol, exigiram a sua retirada.

Lembro filmes épicos quando o homem escravo do outro, lutando até a exaustão, caía e era condenado a fenecer. O vencedor(?) era obrigado a eliminá-lo definitivamente, obedecendo a ordem ditada pela posição do dedo polegar.

E hoje continuamos gritando "Fora!", apontando todos os demais dedos.

Pela dieta


Fala-se tanto em dieta, regime e corpo escultural e eu fico me perguntando o por quê de tanta nóia? Conversando com o cérebro e o estômago, percebi que a comida, ou melhor, a comilança está no cardápio da nossa vida.

Qualquer aborrecimento, o estômago responde: flatulência, empachamento, dentre outros. A vida tem sido o grande estômago. Na hora da promoção olhamos para o nosso umbigo. E, na maioria das vezes nos prendemos nele e deixamos o tempo passar.

Depois de uma extenuada vida noturna que saía pra beber e comer, só vou de pizza agora. O estômago está sempre falando mais alto! A maior conta do mês vai para o supermercado. A grana extra é para os finais-de-semana, que incluem um bom prato de macarrão ou um almoço mais arrumadinho pra família aos domingos.

Os restaurantes fazem a festa: quinta do caranguejo, sábado da feijoada, e do churrasco; domingo de pratos variados; promoções de sushi, de fondue e lá vamos na onda da colher, mergulhando nos caldeirões.

Comer é pra todos, mas a democracia não é praticada no prato. Enquanto um grupo seleto senta-se a mesa, delicia-se com as guloseimas em ambiente de ar-refrigerado, logo ali na esquina, a poucos metros, alguém revira a lata do lixo em busca de alimento.

A comida também está presente na cantilena das campanhas eleitorais e muitos programas alimentam o que se chama de social: temos o Bolsa-Família, que veio para combater a fome. Que regime!

Precisamos ajustar a pirâmide comestível: na base, educação e emprego; acompanhada de preços baixos, mais cor nos pratos com menos agrotóxicos, liberdade nas ruas, portas e janelas aberta pra casa respirar. Isso seria o começo.

Do lixo


O lixo acompanha a nossa história. Eu sou do tempo que se enterrava sobras no quintal. As folhas das grandes mangueiras, goiabeiras, cajueiros e outras árvores frutíferas eram recolhidas e queimadas. Ninguém reclamava da fumaça porque era consenso na vizinhança. O trabalho era alertar para a retirada dos lençóis passados no anil, que dançavam ao vento e se iluminavam a luz do sol.

O recurso poético é para tentar abrandar a situação de hoje dos que vivem amolestados pela abundância do lixo. Os resíduos sólidos, matéria orgânica, não adubam apenas, alimentam o homem, como imortalizou a poesia de Manuel Bandeira.

Somos convidados a mudar a cultura da convivência com o indesejável, armazenando com cuidado em sacos plásticos; separando os recicláveis, dentre outras medidas.

Só não se vê uma fórmula para resolver e dar vida digna ao sobrevivente dos lixões. Não falo dos produtos que levam anos para desaparecer. Estou falando do pai de família, da mãe do garotinho subnutrido que se cobre de poeira, oferece o seu corpo à contaminação para (que paradoxo) garantir a sua vida.

O Povo flagra a realidade, que na maioria das vezes, fingimos não ver.

Matu(r)idade


Costumo dizer brincando que envelhecer dói e que preciso aprender a amar os velhinhos. O sorriso não tira a veracidade. Não precisamos andar muito a procura de exemplos para perceber a falta de amor a quase todos nós, no convívio social.

Vemos o que a cultura da moda dita: ser gordo, ser idoso e usar óculos, dentre outros, é ser constrangido a se policiar e pedir licença quase o tempo todo para participar do código de convivência no cotidiano.

Foi como camaleão que nos pintamos e absorvemos palavras de ordem para fazer a leitura imposta. Nos psicoadaptamos em ver nos quilinhos a mais( a expressão já deixa você por baixo) e nas marcas de expressão(substituindo as rugas, as marcas do tempo) como algo indesejável e que nos causa horror!

E tudo faz parte de um processo natural, no caso, a flacidez da pele e outras conseqüências que o tempo carrega; e a praga da dieta forçada, posta de goela abaixo, que nos faz sentir culpados e experimentar o crime de comer escondido!

E escondido fazemos outras coisitas mais que não agridem o corpo, mas a mente. Mentir, por exemplo, no ledo engano de que não seremos descobertos. Ou de prometer, sabendo lá no fundo, antecipadamente, que só queremos adiar a ação. E aqui, lembro de outra aculturação de que não devemos confiar no político, na política. Mas, aí é outra estória ou história.

Para ter discernimento, a alternativa é se fortalecer de informações, e iniciar uma nova cultura de saber o que deseja pra si, por exemplo. Um bom começo é a leitura de Mulher madura do escritor mineiro Afonso Romano Sant'Anna.

Aposentar?

Eu não me imagino aposentada, fazendo crochê tranqüila e postando no blog pelo prazer de escrever sem medo de perder o provedor por atraso na mensalidade, apesar das inúmeras vantagens promocionais.

Também não me vejo curtindo uma boa cadeira na varanda sem a menor preocupação com o valor da mensalidade do plano de saúde, que de tão caro, já nos causa turbulência na estrutura física.

Não me sinto aposentada porque olho na minha carteira de trabalho e sinto a distância do tempo a percorrer porque está desatualizada há sete anos. A última vez que recebeu um carimbo foi na despedida do emprego de 18 anos.

E aposentar pra quê? pra pegar empréstimo com juros estabelecidos de 2,9%? O teto máximo já está em vigor para o aposentado que se arrisca a solicitar empréstimo com desconto em folha.

Como sou otimista e ainda falta muito tempo para aposentadoria, vou torcer para quando o meu momento de aposentar (duvido que o faça) chegar, não seja constrangida a correr pro asilo do empréstimo.

Quer saber como ficou definido o empréstimo? Segue aqui O Povo.

Ser jornalista


Peguei emprestado da minha filha que já tomou de um amigo e estou lendo as Memórias profissionais de Ricardo Noblat. A obra faz parte da série O que é ser, da editora Record que tem como público alvo os jovens estudantes e cujo objetivo é mostrar a trajetória de muitos profissionais que formaram e formam a nossa história.

A editora concebeu a idéia ao perceber a insistência de se encaminhar adolescentes de 15 e 16 anos aos cursinhos e, uma vez lá, serem constrangidos a escolher a profissão que vai lhe garantir a sobrevivência no futuro.

Como ter certeza, ainda na adolescência, de que quando adulto estaremos satisfeitos com a profissão abraçada? Coloco em dúvida esse processo das escolas apressadas em formar.

Ricardo Noblat, blogueiro desde 2004, dirigiu o Correio Brasiliense durante oito anos (1994-2002) e passou pela redação do jornal o Globo e das revistas IstoÉ e Veja. Num texto apaixonante, Noblat nos coloca dentro da sua história e nos faz viver nele a paixão e a seriedade de ser jornalista.

Isso porque ir à redação todos os dias, pegar a pauta, cobrir, levantar dados e juntar as idéias, é muito mais que garantir o emprego. É fazer história passo a passo. É ser a história.

Ainda estudante, Noblat "furou" um grande concorrente, usando da perspicácia e da persistência que são até hoje os estímulos desse brilhante profissional. E para quem se arrisca na aventura de ser jornalista, o recado do nosso colega:

"Quem desejar levar a sério o jornalismo há de se tornar refém de suas leis
universais e, até certo ponto, desumanas. Uma delas ensina que a glória de
um
repórter dura, no máximo, 24 horas. Na verdade, dura menos que isso. A
reportagem pode lhe render elogios até o meio-dia. Depois não se falará mais
dela entre seus colegas e chefes. O autor da proeza estará ocupado com outro
assunto.

E se não provar com regularidade que é capaz de continuar
produzindo bons trabalhos, passará a ser obejto de críticas e se arriscará a
perder o emprego.

Outra lei estabelece que o jornalismo deve ser exercido em tempo integral.
Isso quer dizer: do momento em que o jornalista acorda até o momento em que vai
dormir. Notícia não tem hora nem dia marcado para eclodir e você esbarra nela em
qualquer lugar. Uma vez detectatada, não se pode ignorá-la sob pena de incorrer
em crime de lesa-majestade.

A pena máxima para o crime é o olho da rua. Pois o jornalista veio ao mundo
para correr atrás de notícias e oferecê-las ao estimado público da melhor
maneira possível. Com precisão, clareza e honestidade."

Mensageiro da arte


O compositor e o escritor são mensageiros de idéias em movimento, que combinadas com o ritmo ou espaços, nos premia com bons momentos de arte. Por isso, eu costumo me queixar do que tenho ouvido nos rádios e do que tenho visto nas livrarias e bancas de jornais.

Faço parte de um contexto artístico numa terra onde proliferam sensíveis, que fazem da cor um arco-íris, e que improvisam dos fatos cotidianos e nos arrancam gargalhadas. A arte é um prazer infindável.

O Ceará, que não sabe contar ainda o tempo de existência se 400 ou 500 anos, tem no calendário dos seus dias, inúmeros artistas. Muitos já se foram e, do outro lado, nos inspiram. Outros, por sorte, permanecem entre nós.

Fausto Nilo é o arquiteto das letras. O poeta concreto, uma vez que expande talento nas obras arquitetônicas. E brinca com as palavras, transformando-as na companhia dileta. Como é bom ter ouvido para acompanhar suas canções.

E hoje, o nosso compositor brindou gentilmente a audiência da Am do Povo. Eu não tive oportunidade de ouví-lo. Fiquei na marginal, presa no expediente de trabalho. Mas, oportunidade não falta para traduzir o que tenho de mais sensível e saborear a arte brasileira de ser do poeta.

Fausto Nilo é como sugere o segundo nome: um rio que resiste ao deserto e faz brotar a vida. Sem receio permite-nos a sinceridade de declarar o caminho, que percorre para arte final de suas composições.

Tomara que a declaração que se segue sirva de estímulo para os apressados, os que com objetivo de atender o mercado exigente, atropelam as letras, maltratam a nossa língua, confundem os nossos jovens e comprometem a nossa cultura.


"Muitas vezes demora mais de um ano para terminar a letra de uma música
porque não consigo achar a frase ideal. Outras vezes, a música fica pronta em
poucas horas. E acho engraçado que em outras oportunidades, escuto uma música
minha no rádio e me pergunto o motivo de ter usado determinada frase. "

Acompanhe o que nos diz Fausto Nilo

A Arte ilimitada

O que seria de nós sem a arte? Onde mais eu veria a criatura criando, ao invés de destruir? Somos bombardeados(!) o tempo todo pelas mídias....