Infinitude

A delicadeza exige de mim uma compreensão além do desprendimento animal. Sempre me flagro um pouco atenta, um pouco descuidada da forma de me ver mulher. A princípio, tudo colorido ou dolorido, porque sair do preto e branco é um aborto dramático para adolescente.

Na maturidade... ah ser madura, como é misteriosa essa passagem! Nem sempre há bilhetes suficientes para a viagem em primeira classe. Sobrevivência, palavra de ordem, que sufoca os arrepios da arrogante interpretação do que é ser ampla.

Ser delicada é uma exigência que me afeta diariamente por medo de perder a cor, as petálas das vivências e o espinho do talo da experiência.  Não é uma questão de rima. As flores murcham,  os espinhos, não.

A suavidade de um pensamento alegre me atrai, da mesma forma como sou arrebatada para um mergulho profundo em busca do rescaldo da dor. Não sou suave, nem violenta. Sou explosão, numa galáxia a ser descoberta ainda.


Quadro

No mundo das artes quero ser o pincel com a liberdade de correr pela tela espalhando cores vivas!

Quero fotografar o amanhã do observador, que não vai perceber a ideia lançada na essência do recriador.

Quero vencer o tempo que amarela a lembrança. Sim, porque o quadro permanece apesar das traças do esquecimento.

Quero manchar a roupa do artista com marcas perpétuas que o solvente apenas faz brilhar.

Quero chá

Uma xícara de chá sempre lembra calmaria, com o olhar sem muita pretensão para a fumaça que se esvai, prometendo um gole quentinho. Nem  sempre vou atrás do sabor, só o calor importa neste momento. Aos poucos, o corpo aquece a partir da glote.

Quando garota viajava no tempo dando ouvidos ao som dos goles aflitos. Isso porque quando criança a gente tem sempre pressa para que o alimento faça a sua função.

Depois, uma mesa (não importa o tamanho), um livro aberto, canetas sem tampas numa aflita vontade de  espalhar a tinta sobre o papel em forma de pensamento. A fumaça é o transporte para uma viagem sem retorno.

O pensar que extrapola o papel encontra destino num olhar descuidado. Nem tudo que se deita em folhas levanta ideias.

A xícara foi esquecida e o vento arrasta as folhas escritas sem piedade, que alçam voo desatinado e o olhar fica preso à distância de que nada vale a corrida do que se foi.

Fotografia

A fotografia guardada numa caixa esquecida, continua retendo o flagrante da vida real, que impacta ao vê-la agora.

Estranho o sabor do tempo remoto. É um paladar amarelo de uma fruta passada, amadurecida sem sementes.

É como se resumisse a tempestade de sentimentos, que me acompanha sem proteção do guarda chuva do bom senso. As imagens -feito estátua -nem lembram a obra do artista.

Devolver ao fundo da gaveta é despedida para um até breve. Reter no colorido do dia atual o branco e preto de um instântaneo reto, num simbólico gesto de resignação. O tempo não pára e nem eu.

Biscoito


O ensinamento, diário muitas vezes oculto, fica próximo ao peito. O coração não diz porque o cérebro ocupado não escuta. E até mesmo o sentido do tato é relegado.

Desejo que os meus amores sejam como o biscoito, que caiu no bolso da minha camisa enquanto tentava matar a fome. Escorregou da mão e sumiu de vista. Olhei para baixo e apenas dei com o azul do carpete.

Horas depois, ao ter o corpo trêmulo de dor solidária pela morte do pai de uma amiga, toquei sem querer o lado esquerdo e senti algo mais firme. Estranhei, abri o orifício do bolso e lá estava o biscoito, que mesmo ignorado permanecia próximo a mim. Se você me ama, seja o meu biscoito, amigo do peito.

Favorito

Quando eu amo coloco o meu amor no topo da lista dos favoritos. Nem penso em deletar, bloquear e, muito menos, ficar off line. Evito novos contatos - em todos os sentidos.

Filtro as noias e o spam das dúvida. Cesso o cursor para evitar caraminholas no meu rico arquivo de experiências.

Esqueço todas as senhas que me levam ao desgosto. Documento novos conteudos, novas mídias.  Costumo rever tags antigas, que recebem novos aplicativos.

O virtual é tão real quanto as cartas de amantes, que demoravam meses atravessando oceanos, amarelando com a saudade.


Sem sentido

Eu gosto de ladrilhos, com seus brilhos, o tamanho, tão pequenos e tão lúcidos! São palavras que se encontram num verso para destoar da poesia.

Ladrilhar é pular sobre pedras coloridas da mente que explode muros  de artes. Fazer sentido tem sido a meta humana, quando um simples olhar pra chinelos largados embaixo de uma rede, me faz lançar suspiros muito mais do que qualquer objetivo.

Pássaros

Sempre gostei de ouvir pássaros.                                                           Créditos: depositphotos.com / steve_byland Cantos...